quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ai Ai Ai

2) Joan Brossa era catalão, e por mais que a Catalunha seja uma região subjugada ao Estado espanhol castelhano, ele escolheu escrever seus trabalhos em sua língua natal. Portanto, a palavra “folha”, para o poeta visual, chama-se “full”. Mas assim como no português, tanto a folha de papel como a folha da árvore, ou a “full” de papel e a “full” de árvore, são homônimas, sendo distinguidas pelos símbolos indiciais¹. Tendo esta ideia como ponto de partida, “Falar implica a seleção de certas entidades linguísticas e sua combinação em unidades linguísticas de mais alto grau de complexidade.”² Certa-mente, a arte e Brossa apoderaram-se desta capacidade da língua de, em através de um signo verbal, poder referir-se a diversas coisas para fazer um jogo de significações com “Burocracia”. Com a definição de Roman Jakobson de “combinação” e “seleção”, vê-se que, para a elaboração do trabalho artístico, foi empregado o conceito do segundo, ao passo que o signo “folha” é apenas semelhante verbalmente entre suas duas possibilida-des, pois no aspecto físico e de função, o significado seja completamente outro: “(...) equivalente ao primeiro num aspecto e diferente em outro.”³. O título do trabalho e o clipe contribuíram para o entendimento do objetivo da obra e a situaram em uma linha de raciocínio. Apesar de tudo, por mais que a palavra “folha” esteja sendo analisada e vista como condição para o entendimento da obra, a linguagem não verbal é a predominante no trabalho e é ela quem o compõe, em sua totalidade. Por sabermos tratar-se da folha pela sua representação em imagem – e a partir daí que se passa a fazer a correlação linguística com seu homônimo – e pelo clipe que une as duas folhas nos remeter indicialmente ao trabalho de escritório burocrático de uma repartição pública, escritório etc., percebe-se que a correlação entre um signo verbal pressupõe a existência de um não verbal que o represente no mundo da percepção (uma palavra, um conceito, algo que não possua facilmente uma representação em imagem, um correspondente, torna-se rapidamente mais complexo de ser depreendido pela cognição humana, por tratar-se e chegar-se ao ponto de uma abstração). Substituiu-se uma folha por outra folha, gerando assim deslocamento e reflexão, através da seleção, em se tratando de folhas secas e caídas, sem vida, que demonstram a apatia de um estado burocrático e mecânico, em qualquer nível de relação interpessoal e de ofício.

1. Lúcia Santaella, “O que é semiótica?”, página 69.
2. Roman Jakobson, “Linguística e comunicação”, página 46.
3. ______________________________________ , página 49.


1) Em “O enigma de Kaspar Hauser”, percebe-se que o personagem principal, ao estar totalmente privado das experiências externas durante todos os primeiros anos de sua vida, faz com que ele não tenha a faculdade da fala e, consequentemente, não possua uma interação específica e compreensível de mediação com o mundo e seus fenômenos. Ainda que não saiba ler, escrever e falar, sabe pronunciar a palavra “cavalo”, sendo ele um brinquedo que possuía. Em momentos do filme percebe-se que ele consegue no decorrer do tempo falar outras palavras, mas inicialmente elas soam vazias de conceito e significação, sendo nula a relação de conceito e imagem acústica, demonstrando uma capacidade apenas de repetição. Esta realidade tendo se alterado no decorrer de sua vi-da, Kaspar Hauser consegue aprender a ler e a escrever, demonstrando em um ser adulto os percalços passados por uma criança ao aprender a ler, escrever, falar e interagir com o mundo, por mais que com ele tudo tenha sido muito mais dificultoso. Apesar de tudo, por mais que o personagem principal tenha conseguido aprender a linguagem verbal, ainda assim era complicado administrar sua relação com os conceitos e com os códigos não verbais vigentes na época. Sendo a natureza do signo linguístico aleatória, para ele o era também muitas coisas, estando ele, por mais que soubesse falar, ler e escrever, privado em momentos de conseguir formular uma frase sintaticamente coerente e que possuísse lógica, já que ela, assim como o signo linguístico, é socialmente convenciona-da. Um bom exemplo desta situação é quando Kaspar está conversando com um profes-sor e o último quer convencer o rapaz da melhor maneira de saber se alguém está falando a verdade ou não. A distinção entre realidade e sonho também é estranha a Kaspar, pois ele não atribui categoricamente as linguagens em estados distintos, sendo tudo um mesmo aglomerado de sensações, palavras e conceitos. Kaspar tendo desenvolvido boa habilidade para músicas e arte e não tendo um bom curvamento subjugado às convenções da época em se tratando de etiqueta e religião mostram como os códigos são, assim como a linguagem em seu conceito primário de fala, ensinados e decodificados desde a infância e passados adiante. O que Kaspar Hauser fez com sua incompreensão do mundo como o obrigaram a ver é o que os estudiosos, filósofos etc. o fazem também, questionando as padronizações, ainda que estes não sejam considerados tão anormais como foi o rapaz alemão. Portanto, vê-se que a natureza do signo linguístico proferida por Saussure é correta no que concerne a sua aleatoriedade e a suas imagens acústicas, tendo em “O enigma de Kaspar Hauser” um bom caso de entendimento da situação onde a noção de signo, significado e significante é conturbada para o personagem, assim como de fato deve ser mesmo quando a vida, questionada.

Nenhum comentário: