segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sensation


Nas belas tardes de verão, pelas estradas irei,
Roçando os trigais, pisando a relva miúda:
Sonhador, a meus pés seu frescor sentirei:
E o vento banhando-me a cabeça desnuda.
Nada falarei, não pensarei em nada:
Mas um amor imenso me irá envolver,
E irei longe, bem longe, a alma despreocupada,
Pela Natureza — feliz como com uma mulher.

Arthur Rimbaud

É que tudo cansa


"(...) Vocês sabem muito bem que a minha vida não foi fácil. Sofreram muito. Sofremos muito. Sofremos juntos. Sofremos nós. Eu gostei da vida e valeu a pena. Muito obrigado por terem me ensinado tudo. Amo muito vocês todos. Tomara que exista eternidade. Nos meus livros. Na minha música. Nas minhas telas. Tomara que exista outra vida. Esta foi pequena pra mim. Está chegando a hora do programa terminar. Mickey Mouse vai partir. Logo nos veremos de novo. Nunca tenham pena de mim. Nunca deixem que tenham pena de mim. Lutei. Luto sempre. Desculpem-me o mau humor. É que tudo cansa. Kkkkkk..."


Rodrigo de Souza Leão

A new old soul diva


Revista Rolling Stone, página 138, edição 45 - junho / 2010, alto da extremidade direita da página.

Freud e eu (2)


2) Em que medida a análise das parapraxias e dos sonhos revela o conceito freudiano de inconsciente?

As parapraxias, atos falhos, para Freud “Não são eventos casuais, porém atos mentais sérios; têm um sentido; surgem da ação concorrente – ou, talvez, da ação de mútua opo-sição – de duas intenções diferentes.” (FREUD; Imago, 1988, p.61) Ou seja, não trata-se apenas de um erro vazio, mas revelador de alguma coisa. Com os sonhos ocorre pro-cesso semelhante, sendo ele uma ponte interpretativa para encontrarem-se desejos, verdades, escondidas por uma camada expessa de consciente. O inconsciente, então, para o pai da psicanálise e seus seguidores, é o que poder ser chamado de “verdadeiro eu”, escondido muitas vezes por convenções sociais, traumas e repressões generalizadas. Tomando-se frase de Jacques Lacan, então, há de se pensar onde não se é, pois se é onde não se pensa pensar. Isso segue a afirmação de que todos “saberiam” de seu “inconsciente”, apenas não saberiam disso (questão 4). Então, em que medida as análises, interpretações dos sonhos e das parapraxias (de língua e outras) são capazes de revelar o interior, o âmago do ser humano? Percebendo-se que os lapsos, os atos falhos e, obvia-mente, os sonhos, ocorrem em pessoas consideradas sãs (p.62) que realmente importam, mas sim as intenções, circunstâncias, contexto, que levaram a eles e a interpretação de seus elementos relevantes. Portanto, utilizando-se de exemplos fartos, de ponderação racional e de sempre por em dúvida uma afirmativa sua, a confirmando logicamente em seguida, que Freud mostra que percorrendo-se corretamente os caminhos verdadeiros (e não os falsa ou enganosamente verdadeiros), que pode-se ter nas parapraxias e sonhos uma ajuda no encontro do inconsciente. De certa maneira, concluindo, é curioso ver-se que o processo de “convencimento” de suas “senhoras e senhores” é muito coerente ao de Descartes e Sócrates, em seu “só sei que nada sei” e no duvidar constante. No entan-to, Freud refuta a filosofia: “Da filosofia nada podemos esperar, exceto que uma vez mais nos salientará orgulhosamente a inferioridade intelectual de nosso estudo.” (FREUD; Imago, 1988, p.121) Porém, vê-se, em artigo “A filosofia de Freud e o Freud da filosofia – Apesar de sua resistência à filosofia, o pai da psicanálise revela muitos elementos filosóficos”, de Richard Theisen Simanke (Revista Cult, junho/2010), que ela o auxiliou deveras e que ele a ela igualmente, levando a um melhor entendimento do inconsciente, na soma das parapraxias e dos sonhos, munidos por uma filosofia de Freud.

sábado, 26 de junho de 2010

Freud e eu (1)

Descreva alguns dos principais aspectos do método freudiano de interpretação.

“Nada acontece em um tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista.” (FREUD; Imago, 1988, p.29) Diferentemente, então, de uma ciência da área médica, a psicanálise encontra espaço no falar e escutar, não em uma radiografia, por exemplo. Imbuído disso, o pai da psicanálise afirma que “Interpretar sig-nifica achar um sentido oculto em algo.” (p.109) Como a interpretação, nesse caso, está referindo-se aos sonhos – que pode ser considerado uma parapraxia em sono – o sentido que deve ser achado são os pensamentos oníricos latentes contidos no “algo”, os conteúdos manifestos de um sonho. Tendo as afirmações acima como ponto de partida, vê-se o que pode ser o principal dos principais aspectos do método freudiano de interpretação: partir do princípio de que os próprios analisados devem encontrar, “na medida do possível”, a resposta e solução de seus enigmas. (p.126) Isso acontece porque, para a psicaná-lise freudiana, ainda que o paciente/sonhador sempre diga que nada sabe – quão mais traumática for a revelação, maior a negação –, apenas não está sabendo que o sabe, e por isso, pensa que não sabe. Ou seja, o analisado não sabe que sabe, por que a verdade está contida em seu “inconsciente”, não vindo à tona facilmente sem a presença do ana-lista, entendido, portanto, como um orientador de caminhos. Na interpretação dos so-nhos (vida mental durante o sono), considerado aqui forma de ato falho – “Se foi possível às parapraxias ter um sentido, os sonhos podem ter algum, também;” (p.110) –, o inconsciente (profundeza) é trazido então ao consciente (superfície) através das associações. Essas associações, segundo Freud, seguem o mesmo esquema dos esquecimentos de nomes próprios e das palavras-estímulo: seguindo um exemplo pessoal (p.137), ele afirma que esqueceu-se do nome do país da Riviera cuja capital é Monte Carlo. Aleatoriamente, disse nomes substitutos, quando constatou que quatro dos nomes que havia di-to possuíam o mesmo “mon”, de Mônaco, o nome do país que esquecera. Em outro caso pede a um homem que relaciona-se com várias mulheres (p.133-4) para dizer o nome de uma mulher, sendo que não lembrou-se imediatamente de nenhum, dizendo, após, “Albina”, que não era mulher nenhuma, mas na realidade ele mesmo, muito branco, que para Freud, conclusivamente, era “a mulher que mais lhe interessava no momento”. Os sonhos, assim, para serem compreendidos, devem ser associados a experiências recentes e experiências passadas, correlacionando-as, substituindo situações à realidade do paciente, para que com isso a subjetividade por trás da objetividade do sonho seja encontrada: “(...) no caso de esquecimento de um nome, também na interpretação de sonhos (...) a partir do substituto, ao longo da cadeia de associações ligadas a ele e dessa forma obter acesso à coisa original que está sendo mantida oculta.” (p.138) Ponderando, ainda que o esquecimento de nomes próprios seja “excelente modelo do que acontece na análise dos sonhos” (p.136), nos sonhos os eventos divididos entre duas pessoas em sua análise está concentrado em apenas uma, nos atos falhos. Também, “Um sonho difere de um lapso de língua, entre outras coisas, pela multiplicidade de seus elementos”. (p.131) Um bom caso de onde a interpretação de um sonho é satisfatória através das associações – tendo igualmente outros embasamentos explicitados a seguir – foi o da mulher e seu marido no teatro (p.149-152) Entende-se, então, que o sonho é um quebra-cabeça que deve ser desmontado, para que assim possa-se enxergar, de modo particular em cada aspecto seu, tendo em seu todo o complexo. Freud enumera (p.140), concluindo, três “bases” para que se faça uma satisfatória interpretação de um sonho: (1) não nos preocuparmos com o que o sonho parece dizer-nos, seja ele compreensível ou complexo, pois pode não ser o conteúdo inconsciente do mesmo que estejamos procurando – há um porém nisso pois ele afirma que crianças sonham sonhos objetivos e simples, afirmando que alguns adultos fazem o mesmo; (2) deve-se trabalhar com a recordação das ideias substitutivas de cada elemento, não devendo haver reflexões sobre elas e nem considerações de que pode ter algo de importante nas mesmas; igualmente não importar-se com divergências que existam entre esses elementos e os elementos oníricos; (3) procurar que o elemento oculto, inconsciente, dos sonhos, surja naturalmente, através das associações, assim co-mo aconteceu com a palavra “Mônaco” (p.137). Finalizando a questão, há de ter-se em mente que trata-se de interpretação. Uma interpretação pode ser entendida e vista como uma opinião que, por sua vez, subentende outra (TARDE; Martins Fontes, 1992), o que faz com que a subjetividade da psicanálise fique evidente, fazendo com que alguns pudessem duvidar de sua credibilidade. Entretanto, Freud explicita de modo eficiente seus argumentos e difere o que considera “misticismo”, como, por exemplo, um sonho prever algo futuramente; ou um sonho com um dente significar morte iminente, de sua “interpretação de sonhos”.


Bibliografia
1) FREUD, Sigmund. (1916-17[1916-17]) Conferências introdutórias sobre psicanálise (Parte I: Parapraxias). Rio de Janeiro: Imago Editora LTDA, 1988;
2) FREUD, Sigmund. (1916-17[1915-17]) Conferências introdutórias sobre psicanálise (Parte II: Sonhos). Rio de Janeiro: Imago Editora LTDA, 1988;
3) TARDE, Gabriel. A opinião e as massas. São Paulo: Martins Fontes, 1992;
4) CULT, Revista. Freud, continuidades e rupturas – Novas leituras da perturbadora obra do pai da psicanálise. São Paulo: Editora Bregantini – nº147 – junho/ 2010 – ano 13 – pags. 46 a 65.

Seja agnóstico, seja feliz


Agnosticismo teísta já!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O bunker da comunicação comunitária - II Encontro de Comunicação Comunitária Interativa discute sua ação e futuro

“Onde está chegando a comunicação de interesse coletivo que você ou sua instituição emite?” Esta foi a pergunta que deu início aos debates do II Encontro de Comuni-cação Comunitária Interativa, realizado no SESC Santa Luzia, Centro do Rio, em 16/06, de 09h00 às 12h30, coordenado pelos jornalistas George Araújo e Luis Fernando Sar-mento. De início, um café foi servido e as pessoas devidamente acomodadas em círculo. A todos foi dada uma cópia da coluna de Contardo Calligaris na “Folha de S.Paulo”, do dia 10/06, intitulada “O direito de buscar a felicidade” e, a quem desejasse, DVDs de te-mática social estavam disponíveis em uma mesa, como, por exemplo, “Criança, a alma do negócio – Um documentário sobre publicidade, consumo e infância”. Um bebê e cer-ca de trinta pessoas compareceram ao encontro, tendo cada um o direito de responder a primeira pergunta e falar sobre sua experiência profissional. Os cinco minutos para cada participante acabaram tomando todo o tempo, em detrimento à discussão de temas pun-gentes, mas foi capaz de revelar belas histórias de superação pessoal e bons exemplos de jornalismo e comunicação com um viés mais comunitário e de superação às grandes mídias.

Segundo George Araújo, existem ações interessantes em comunidades, “mas não possuem visibilidade”, pois o problema seria a falta de qualidade de conteúdo. “O pé não junta com o sapato”, completa. Para Luis Fernando Sarmento, sob forte sotaque mi-neiro, o objetivo do encontro é “fazer interação entre os próprios participantes”, produ-tores de comunicação, alterando um quadro onde “as mesmas notícias (são veiculadas), apenas de maneira diferente.”

Para ter-se noção de que comunicações comunitárias não são realizadas apenas por jornalistas, compareceram ao encontro, desde jornalistas, até diretor de teatro, enge-nheiro, fonoaudióloga e poeta. Outra curiosidade é o fato de que a UFRJ estava presente em grande peso, tendo estudante da ECO, pós-graduanda do LECC e Alberto, colombi-ano da Incubadora Tecnológica da universidade, gravando, juntamente ao poeta/cantor/ feirante/jornalista/publicitário Roberto Pontes, todo o evento.

Desses todos, houve um exemplo emblemático de profissional marginalizado pela “grande mídia”: Edson Mackeenzy. Ele é um dos responsáveis pela criação do que é anterior ao YouTube, o Videolog (http://videolog.uol.com.br/), ainda que o último seja bem menos acessado e reconhecido. Vindo de Sobral, no Ceará, não passa dos 30 anos de idade, mas já foi preso duas vezes por fazer parte de uma rádio comunitária, não legalizada por motivos burocráticos, fora que também é um dos idealizadores do “MeAdiciona” (http://www.meadiciona.com.br/), site que pretende unir todas as redes sociais de que você faz parte. Apesar da relevância de tais projetos, não havia conhecimento por parte de ninguém deles, pois são eclipsados pelo que é estrangeiro e mais rentável. Portador de transtorno obsessivo compulsivo, ele se define como um “profissional multi-mídia”.

Portanto, a comunicação comunitária não é exclusivamente a feita pela jornalista Fabiana Oliveira em seu estágio no “Portal Viva Favela”, mas também a que pretende agregar toda e qualquer comunidade, seja ela virtual, real, de classe média ou baixa. As duas “empreitadas comunicativas” somadas resultam em um alcance maior de tudo o que é produzido por todos, em sociedade democrática. Junto disso, há iniciativas como a da mãe que levou seu bebê ao SESC, hoje participante de um grupo de mães na inter-net, mas antes trabalhando no CDI (Comitê de Democratização da Informática) e de Re-nata e Juliana, da Incubadora Afro-brasileira (http://www.ia.org.br/), que faz conexões de tra-balho entre o continente africano e o Brasil.

Tendo se finalizado o II Encontro de Comunicação Comunitária Interativa, percebe-se a grande questão da comunicação, resumida em frase de um dos participantes, que não identificou-se: “Não sei se me ouvem, mas não sei se ouço.” Já quanto à comu-nicação de viés alternativo comunitário, seu problema é o mesmo problema do Encontro de Comunicação: falta de organização. Mas nada que não se queira muito melhorar e ser resolvido por seus participantes.


Em 13/07 haverá um III Encontro, onde serão discutidas pautas deixadas em a-berto no II Encontro, como os videologs, por exemplo. Espera-se que o próximo encon-tro seja tão e mais produtivo que o anterior e que o planejamento e a organização permi-tam que a comunicação comunitária se desenvolva.