sexta-feira, 13 de julho de 2012

A Graça


Aretha Franklin foi criada na Igreja Batista dos Estados Unidos. Na adolescência, já cantava nos cultos comandados por seu pai, C.L. Franklin. Ficou famosa sua gravação de "Precious Lord", aos 14 anos de idade. Porém, o sucesso comercial veio a partir dos anos 1960, com o soul e o blues. Por quase dez anos, Aretha cantou músicas de amor, deixando supostamente de lado a religião. Eleita pela revista "Rolling Stone" a maior cantora do século XX, os irmãos de fé de Aretha a criticavam por ter abandonado Jesus. O jejum teve fim definitivo em janeiro de 1972, com a gravação em Los Angeles (Califórnia) do cd "Amazing grace", na New Temple Missionary Baptist Church. Ganhou o Grammy pela empreitada. Já um mistério ronda a gravação. O cineasta Sydney Pollack acompanhou Aretha para a realização do documentário-musical com os bastidores de "Amazing grace". Até hoje ele não foi finalizado, Pollack morreu e Aretha não o libera ao público.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Lavoura arcaica

"O equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é. Ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral." (Raduan Nassar)

sábado, 7 de julho de 2012

O pior livro de Virginia Woolf ainda assim é um bom livro

"Via a água barrenta e a praia deserta. Mas a vida é vigorosa; o corpo vive e era o corpo, sem dúvida, que ditava a reflexão que o fez mover-se. A gente pode, afinal, deitar fora as formas dos seres humanos e reter, no entanto, a paixão - que antes parecera inseparável do seu invólucro carnal. Agora essa paixão queimava no horizonte, como um sol de inverno a abrir no poente uma janela verde através de nuvens que se adelgaçam. Seus olhos estavam postos em alguma coisa infinitamente longínqua, remota. Com essa luz achava que seria possível caminhar; e com ela haveria de encontrar, no futuro, o seu caminho. Era tudo o que lhe restara de um mundo populoso e fervilhante." (Noite e dia - Virginia Woolf - página 199 - capítulo 12)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Dadaismo


Mas quais são as diferenças entre ser e estar? Hoje eu estou, amanha eu sou, hoje eu sou isso, amanha eu sou aquilo. Mentira, eu não sou absolutamente nada de diferente, continuo com o trauma em mim e eu existo permanecendo no trauma traumático pela traumatização, já que escrevo por não ter nada a fazer no mundo, sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens, escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever eu me morreria simbolicamente todos os dias, mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos, já experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero e agora eu só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui. Eu não entendo porque cito tanto Clarice Lispector. Mentira, eu sei: ela me fascina. O problema é que ela fascina a todos e eu tenho a impressão de que as pessoas pensam que eu sou clichê. Mas eu não sou clichê. Eu sou um grande intelectual, um grande escritor, um grande, assim como afirma Jonathan Franzen, eu abro os olhos da medíocre humanidade. O que significa ser feliz? Eu não compreendo essa situação, pois vivo de momentos inconstantes, quando um dia tudo é meu e basta passar o momento de euforia e eu entrar no ônibus para que tudo deixe de ser meu. A pior coisa foi estar ali sentado na mesa e o homem que não me conhecia, perguntou: “Mas quem é que escreveu isso?”, de maneira repressora. Alguém diz: “Ele”, quando eu estava a seu lado. Eu não fui aprovado. Pior que isso é verdade, realmente verdade. A maior parte do que escrevi é verdade. Acho que esse está sendo um dos principais motivos para a minha literatura não estar andando. Minha literatura está sendo muito repetitiva porque eu vivo uma vida muito repetitiva e como minha literatura é a minha vida , uma é mais viciada que a outra.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

sábado, 23 de junho de 2012

Floresta brasileira produz o tratamento para doenças que até hoje não tinham solução, mas falta de investimentos é problema para as pesquisas - Empresa que explora a biodiversidade nacional já descobriu cerca de 3 mil espécies desconhecidas, porém deve fechar suas portas

As plantas podem curar doença de Chagas, diabetes tipo II, tuberculose, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e a tão temida infecção hospitalar. Estas descobertas foram feitas por pesquisadores da empresa brasileira Extracta, que visa trabalhar a biodiversidade brasileira para a criação de, principalmente, novos fármacos.

De toda a flora analisada desde 1998, ano da criação da empresa na Ilha do Fundão (Rio de Janeiro), mais de cinco mil plantas foram analisadas e impressionantes 63% delas eram de espécies desconhecidas. Por que, então, o maior acervo nacional de extratos e compostos obtidos de nossas florestas está perigando de fechar suas portas em 2012? Por que, mesmo podendo curar tantas enfermidades, ainda não há de fato um remédio para elas?

– Estamos na maior dificuldade, porque não temos contrato com nenhuma empresa atualmente – afirma Antônio Paes de Carvalho, diretor presidente da empresa, especialista em coração e professor emérito da UFRJ. A Extracta cresceu, principalmente, afirma Carvalho, por causa de contrato de US$ 3 milhões com a empresa farmacêutica Glaxo.

O contrato é dos anos 1990 e por isso não foi prejudicado pela Medida Provisória (MP) 2186, de 2000. Esta determinação, diz Carvalho, fixa limites e dificulta a exploração das florestas, impedindo que se chegue perto da mata, prejudicando o acesso à pesquisa.

– A grande indústria internacional se afastou, mas não tem problema, porque posso trabalhar com a indústria brasileira. Mas nenhuma quis, ou tinha dinheiro, para investir na Extracta – considera Carvalho, refletindo sobre a realidade dos investimentos no país.

Já este ano, a Extracta deve ser desativada como empresa, mas o intuito é de aproveitar tudo o que já foi feito durante 13 anos e transmitir como conhecimento para a universidade. Eles querem “acabar com a empresa como negócio”, lamenta Carvalho, em face da exaustão dos recursos e de não haver nenhum sinal do governo de querer investir de verdade no tema.

Tema complexo em debates, a questão do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável é questão delicada para muitos especialistas do tema. Sem papas na língua, Carvalho pondera sobre os efeitos do aquecimento global e do medo de se produzir conhecimento por meio da floresta.

– Eu acho que há várias coisas que não são exatamente como se diz. Com o aquecimento global não há nenhuma conclusão sólida sobre ele. Se você ver a temperatura do mundo, existem grandes oscilações há anos e períodos cíclicos – acredita o pesquisador. –Com um acréscimo de 0.2 graus, não há consistência científica para se constatar uma grande mudança no clima – conclui.

 O real fator poluidor, garante Carvalho, que desde 1964 é professor universitário e um dos maiores especialistas do mundo em coração, não são as fábricas e sim a pobreza. A poluição gerada pela falta de saneamento básico e mínimas condições de sobrevivência são muito mais agravantes para o meio ambiente. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A fina Josefina


Houve uma estória que, de tão verdadeira, parecia inventada. Era uma vez Josefina, nascida no Morro do Encontro. Sua mãe, Arlete, morreu quando ela tinha seis anos, de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. No Grajaú, bairro que ligava o Morro do Encontro ao bairro de Jacarepaguá, criou-se meio que sozinha Josefina, ainda que com sua casa fixa na favela. A pracinha, no centro, rodeada do mercado, da escola, do restaurante e da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, foi seu ínterim entre o fim de sua mamãe de verdade e o começo de suas duas novas mamães. 

Linguona e Perseguidinha eram mulheres que viviam em matrimônio estável e amável no barraco construído com muito sacrifício no Morro da Divineia, entre os bairros do Grajaú e Andaraí. Acharam a pequena na Praça Edmundo Rego (pracinha) brincando com os pombos, abandonada e desencontrada. Levaram-na, deram banho, alimentaram bem, a matricularam na Escola Municipal Lourenço Filho e tentaram dar umas cafungadas na moça, já com onze anos, pois não eram suas parentas no fim das contas e isso Deus perdoa. Conseguiam alguma coisa, durante o sono de Josefina. 

A trajetória de Linguona e Perseguidinha teve uma separação, apesar de tudo. Linguona vinda do Morro de São João e Perseguidinha dos Macacos, eram como Romeu e Julieta: suas comunidades não eram muito amigáveis uma com a outra. Como fofoca é algo que pega mais que sanguessuga, Linguona ouviu um caso de que Perseguidinha estava de romance com uma moça rica de Ipanema, toda da dondoca e da caminhoneira. Sangue a fervilhar pelas ventas, Linguona mandou que os donos do São João matassem Perseguidinha. Um dia, saindo do 435 (Gávea – Grajaú), vinda do serviço, Bandidão Primeiro e Bandidão Segundo sorrateiros que nem sombra foram atrás da coitadinha. Antes de pisar no primeiro degrau que dava acesso à Divineia, Perseguidinha morreu com dezessete tiros nas costas. O primeiro a matou. 

Sozinha, Josefina estava ao esquecimento novamente. Ainda que permanecesse na escola, continuou no analfabetismo e se tornou mulher aos doze vivendo no banco da praça. Ganhou um real por dia por serviços prestados aos taxistas que batiam ponto em frente à Confeitaria Caprichosa. Seus serviços eram prestados no banco detrás dos carros que ficavam ali pela madrugada, ou na Reserva Florestal do Grajaú, com os que trabalhavam de dia. Aos quatorze anos, assassinou no banheiro feminino da escola, com uma navalhada no pescoço, uma periguete que a chamou de puta. E todos foram felizes para sempre. Fim.