sábado, 21 de agosto de 2010

VII) Deus e o esquizofrênico

"Rodrigo é beato. Acredita em deuses. Cristo. Iemanjá. Apolo. Afrodite. Ateneia. Exu. Afrodite. Mickey Mouse. Chaves. (...) Tudo o que vem do humano é Deus. Uma geladeira. Uma máquina de lavar. Conheci deuses na infância. Garotos que morreram. Solidões inóspitas que só se davam comigo. Café com leite. A utopia é importante. Escrever uma página hoje já é uma utopia. O futuro manda lembranças. As lembranças que fiz. Que farei. Eu sofro. Sofro de um sopro de vida." Me roubaram uns dias contados – Rodrigo de Souza Leão.

Estava de pés, diante da grande janela que abria seu quarto de dormir para o mundo. Naquele dia, acordara com um certo temor, estranho para sua pessoa, mas já conhecido através da literatura de Dostoiévski. Tinha anseios que lhe faziam o coração palpitar de maneira extremamente acelerada e descompassada. Pensou em fechar a janela e deitar-se por mais alguns instantes, porém refutou a ideia, ao passo que sua coluna vertebral doía demasiadamente, em consequência de uma lordose obtida na infância distante e poeril. Estar como estava seria o melhor a ser feito, pensou. Logo desceria os degraus que separavam os andares da grande residência e tomaria um farto café da manhã. Infelizmente, o comeria só. Não se lembrava bem o porquê de estar ali, sem ninguém, em uma casa tão grande. A esquizofrenia afetava de modo permanente seu cérebro e impedia que possuísse raciocínios muito longos e complexos. Parou. Olhou para trás e vislumbrou o ódio que minutos antes havia sentido. Queria sofrer. Queria matar. Queria retirar de seu interior aquela angústia que o assolava e o imobilizava. Fez questão de retirar-se do quarto e encaminhar-se para o lavatório, onde jogaria em sua cara carcomida um bom punhado de água e tentaria sair de alma lavada para mais um dia. Ao chegar lá, mirou o espelho e foi em direção ao mesmo, sem hesitar nem sequer por um momento. Tinha certeza de que a imagem que seria vista no espelho não lhe seria das mais agradáveis, mas ainda assim quis chegar até o final, como poucas coisas em sua vida conseguiram chegar. Sua intuição não falhou. Repugnou veementemente o espelho. Quebrou-o, em seguida. Com as mãos ensanguentadas e inchadas, foi para a cozinha e as limpou. Por ser uma pessoa forte e de heranças ameríndias, as feridas cicatrizaram-se rapidamente, sem necessidade de curativos. Estava era com fome, bastante. Sentia ódio de si por comer tanto e não engordar. Ora, pois! Porque não era como os seres humanos normais? Qual a razão para não engordar ao ingerir tanto alimento como ingeria? Ódio passou a ter mais ainda. Quando saiu dos pensamentos conflitantes, sentou-se à mesa e notou que a lacaia havia posto tudo em seu devido local, para que agora pudesse desfrutar da hora supostamente tão feliz e fortuita. Começou. Sentiu gases. Isso irrita demais. Parou. Levantou. Saiu. Estava fora de casa, mas ainda não de sua propriedade. Contemplou a piscina, majestosa, por vezes tão azul e por outras tão verde. Recordou-se do filme mexicano “E sua mãe também”, em que Gael García Bernal nadava em uma piscina parecida, num hotel moribundo e chinfrim. Teve vontade de fazer igual. Em contrapartida, não possuía traje de banho, apropriado para o mergulho, o que fez com que não saísse de onde estava, pois seria inconcebível jogar-se dentro da água clorada de pijamas. Tal disparate sairia completamente da normalidade estabelecida pela sociedade. Por ter tido uma criação rígida e católica, não seria capaz de fazer uma loucura. Jogar-se dentro é uma loucura. Logo, em seguida, com praticamente nenhum intervalo, sentiu saudades da família que nunca teve. Da família grande e unida que nunca nem chegou aos pés de ter. Invejou os Buendía. Invejou Gabriel García Márquez por romance tão sublime. Sabia que o autor do romance realista fantástico deveria ter tido uma família semelhante, pois é impossível escrever o que se desconhece. Parou. Achou-se maluco. Como era capaz de sobrepor pensamentos e ideias tão díspares? Além do que, nem possuía motivo para tê-las. Pensou em sentir pena de si. Não, logo depois. Isso seria triste demais da conta. Finalmente, tomou um bom banho, vestiu sua melhor roupa, perfumou-se com seu melhor perfume e saiu. Saiu para usufruir de tudo. Do mundo. De Deus. Mas Ele existe? Porque “Ele” e não “ele”? Porque o “porque” e não um “mas” da vida? Que doideira. Entrou no carro com cheiro de novo, comprado há poucas semanas, com um grande desconto, concedido em virtude da crise econômica que assolava a região. As concessionárias possuíam muito estoque e necessitavam colocá-los no mercado. Virou à direita, depois à esquerda, depois seguiu reto e depois deu uma curva. Começou a chover. De supetão, veio à sua mente o dia em que perguntou para sua prima uma coisa. Era noite de Natal e todos estavam na casa da avó. A prima, de apenas cinco anos de idade, estava quase chegando à varanda do apartamento quando lhe veio a afirmação, para logo vir a pergunta: “Júlia, está chovendo.” Ela olhou-o fixamente em seus olhos. Prosseguiu escutando. “Está chovendo muito!” Continuou impassível. “É Deus que está fazendo xixi”, prosseguiu. Pela primeira vez, então, a menina manifestou-se: “Deus?” Para que viesse a resposta: “Sim, Deus! Você não O conhece?” E, depois disso, nenhuma das duas pessoas conseguiu sair de onde estavam, nenhuma conseguiu parar de olhar uma para a outra, nenhuma conseguiu absolutamente nada. Afinal, quem é? A chuva não tardou a parar. Tanto a do passado, quanto a do presente.

VIII) O oprimido

Já era noite alta e Getúlio decidiu retirar-se de seu quarto e caminhar em direção ao Nada. Em sua mente, naquele momento, não possuía objetivo definido, querendo apenas sair daquela situação repressora e opulenta, que ele tanto menosprezava. O local em que residia era fétido, pequeno e de paredes cheias de infiltrações. Vivia lá por causa dos estudos. Como era da região de Trás os Montes, e lá não havia uma universidade ao alcance de sua intelectualidade, obrigado foi a se mudar para a região de Trafalgar, distante uns quinhentos quilômetros de sua cidade natal. Não possuía familiares fora de seu condado, então teve que sentar na calçada mais próxima do Porto de La Basura, estender suas mãos largas e calejadas, para conseguir obter alguns trocados que lhe permitissem alugar um buraco em qualquer pocilga que fosse não tão distante da Universidade de Estudos Antropológicos Internacionais. O jovem lá já morava havia nove meses.

Ao virar a primeira rua à direita, encontrou um professor seu de História Contemporânea, chamado Senhor Doutor Fulaninho Castro de Alda. Getúlio repugnava-se quando esbarrava em alguém, quem quer que fosse, durante sua caminhada ao Nada, todas as noites. Isso acontecia porque trazia para ele a incapacidade de andar por vias menos movimentadas, e repetia: “Seu traste. Até para isso tu não serves? Meu inconsciente não quer falar com ninguém e minhas pernas não decodificam tal informação? Morra, peste!”. Sendo assim, fingiu que olhava para a calçada, para não ter que movimentar seus lábios e interpretar uma educação que, no momento, era inexistente. Quanto mais se aproximava do homem de meia-idade, mais seus membros corriam. Depois de ter saído do raio de alcance do professor, ele pensou ter escutado algum grunhido vindo por parte dele, mas não deu ouvidos para tais alucinações. Como um homem que ministrava aulas para mais de cento e cinquenta alunos, por semana, se lembraria da existência de uma pessoa tão insignificante, diminuta, aleatória, e que não fazia algo de produtivo para ninguém? “Ufa, tudo passou. Agora posso continuar só.”

Ao ir para o Nada, desejava retirar de seu coração o vazio que o assolava. O grande e aterrador vazio que amedronta as mentes e os corações dos homens mundanos. Pensava em fazer outra coisa além de ir para o Nada, mas diante de tal nervosismo da caminhada e do encontro, de supetão, com pessoa que poderia lhe falar, foi incapaz de raciocinar e lembrar-se de outra coisa para fazer. Começou a esfriar e Getúlio maldisse o dia em que saiu de sua casa para ir para tão longe. Arrependeu-se de ter abandonado mãe, pai, irmãos, cachorros e galinhas, para aventurar-se no mundo do pensamento, dos questionamentos, da produção literária, das amizades curtas e das que duram. Por que tanto sacrifício, se no fim acabaria como agora, caminhando para o Nada? Enquanto caminhava, pensava apenas que deveria ter posto um casaco por sobre as costas. Tinha medo de ter um ataque epilético antes de chegar ao destino tão desejado. Era dessas coisas. Os ataques. O primeiro se fez presente em uma apresentação musical de um grupo vindo de tão, tão distante. Como havia muita gente grudada, Getúlio sentiu-se sufocado, sua claustrofobia manifestou-se em seus piores níveis e desejou que, se não conseguisse sair fisicamente da multidão ensandecida e suarenta, que pelo menos sua alma ascendesse aos céus, para ir de encontro a algum palácio metafísico.

Percebeu que ao longo da grande avenida, que se iniciava, não havia muitas pessoas, o que o felicitou grandemente. Primeiro obstáculo resolvido. Matutou em sua cabeça se haveria de ter esquecido a porta de seu cubículo destrancada. Poderiam roubar-lhe algo. Mas não. O que haveriam de retirar dele? Meia dúzia de papéis em que se discutiam as filosofias de Platão e Freud. Um ladrão, nem por mais perspicaz que fosse, jamais perderia seu tempo em furtar pertences de um homem que não dá ao respeito nem a si próprio. Reteve-se no meio da Avenida dos Santos Anjos e refletiu acerca de uma coisa. O si, o ele mesmo. Por que era uma pessoa que pensava tanto em si mesma, em si própria? As crianças que sofrem de falta de alimento e falta de atenção hospitalar não mereceriam alguma reflexão? Os flagelados da guerra entre Rússia e Geórgia não pediriam alguns segundos de atenção? Seus vizinhos, a família Schauman, que era atingida constantemente por tantos problemas, não almejava nem sequer uma visita de rapaz tão estimado por eles?, o “pequeno Senhor Gegê”, como sempre ressaltava a matriarca dos Schauman, em alusão a Getúlio. “Ah, bobagens e mais bobagens!”, o subconsciente gritou para o consciente de Getúlio Nutini.

Cansou-se de andar sempre em linha reta e virou à esquerda. Logo em seguida, passou diante de uma banca de jornal. Por aquela região, os jornaleiros vendiam jornais e revistas dos mais diversos assuntos e das mais diversas localidades, sendo que a banca de jornal pela qual Getúlio acabara de passar possuía uma novidade: vendia, à mostra em plena calçada suja e desnivelada, livros. Diante de tal fato, ele congelou. Que homem de boa índole, haveria pensado, se antes não houvesse posto os olhos em um livro cujo título se lia “Mrs. Dalloway”. Quase que instantaneamente, voltou aos tempos infantis, quando foi com sua mãe e seu pai à Bienal do Livro. Uma lágrima saiu de seu olho direito, solitária. Mas logo depois seu olho esquerdo, muito solidário, projetou outra lágrima, fazendo com que as duas se encontrassem na ponta do nariz torto. Limpou o choro e retornou para o antes. Em tal Bienal, que naquele ano de 1753 acontecia na cidade de Trás os Montes, sua cidade querida, comprou um livro não muito fino nem muito grosso, com uma capa sem muitas cores contrastantes, em que se via apenas uma rosa bem rosada, diante de um fundo branco bem branco. O maior orgulho não era nem pelo livro em si, no fundo, e sim pelo preço com que conseguira obter tal mercadoria. Apenas dez contos. Quando Getúlio conseguia comprar livros e outros utilitários culturais e engrandecedores de espírito por preços tão em conta, era como se tivesse encontrado sem muitas dificuldades o caminha do Paraíso. Quando chegou à fazenda em que moravam, depois de muito tempo vislumbrando um arsenal literário, pôs um Virginia Woolf legítimo na estante reservada para os grandes clássicos. Em consequência de ainda estar lendo outro livro, conversou com Mrs. Dalloway: “Senhora, pode esperar algumas semanas? Juro que quando terminar com o Senhor João Miramar, venho correndo para a senhora.” Mas isso nunca ocorreu de fato. A senhora foi perdida. A empregada que cuidava da limpeza da fazenda a deve ter levado para passeios em outras pradarias. Getúlio nada pôde fazer. Nem demitir a maléfica foi capaz. Sua mãe não acreditou na estória. Então, para acalentar a dor, vestiu-se de luto por uma semana completa, escreveu em uma papel os dizeres: “Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, descansem em paz”, colocou-o em uma caixinha de vidro e foi em direção ao rio que havia se formado próximo de onde moravam. Pôs, com toda sutileza que fora capaz de empregar no material, o caixão fúnebre em águas. Ele foi-se caminhando em sua total plenitude. Virginia Woolf fora jogada por ele no rio e nunca mais fez o caminho de volta para ele. As duas senhoras foram definitivamente mortas. Como a uma santa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, a caixa, e as duas senhoras que dentro dela foram sepultadas, encontraram seu acalento dentro do líquido transparente e cheio de vida dentro. Diante da banca de jornal, naquela rua sem saída que tinha entrado, passou a acreditar na ressurreição e, por conseguinte, em Jesus Cristo. Isso pois, se até o livro havia ressuscitado, porque Jesus também não seria capaz de igual performance? Sua amada nunca lida havia voltado para ele. Tudo fazia um pouco mais de sentido no vazio existencial em que se perdia cotidianamente. Ajoelhou-se, encostou as mãos, que outrora pedira esmola e que agora apalpava ouro, no livro. Leu as letras que juntas formavam a frase, que juntas formavam o parágrafo, que juntos formavam o texto e que juntos formavam o livro, com tanta intensidade como a um garoto que perdia a virgindade com o mais belo semblante das redondezas. O mundo, naquela hora, o pertencia. Tudo era dele. O conhecimento era dele. Sua vida, que por anos acreditou que não possuía controle, passou a ser controlada por ele. A saliva escorria por seus lábios, como se houvesse a carne mais apetitosa diante de seus olhos castanhos, escuros. Teve, ali, a exata dimensão do prazer que a leitura o proporcionava. “Através da percepção e da notação do que se passa em torno e dentro da personagem central – Clarissa Dalloway -, Virginia Woolf apresenta a história de uma crise.” Igual, idêntico. Assim mesmo leu há tantos anos atrás. Sublime. Por já ser hora avançada e o frio extremo, o senhor que cuidava da propriedade encontrava-se bem dentro dela e Getúlio não quis perder aquela oportunidade. Seus bolsos estavam inóspitos. Dinheiro era inexistente para efetuar a compra. Sentou-se ao chão e rasgou o plástico que envolvia de forma tão apertada a obra. Comeu o livro com seu próprio furor. Encontrou seus dilemas, mas caminhar para o Nada ainda se fazia necessário e essencial.

Depois de ter se fartado com o banquete, Getúlio precisou pensar no que era para ser feito. Manter o livro na prateleira em que anteriormente se encontrava, mesmo aberto, para que outras pessoas pudessem ter a oportunidade que ele teve de aumentar seu autoconhecimento, ou levá-lo consigo, para assim poder desfrutar da felicidade eterna. Necessitou ficar parado, diante de um emaranhado de livros postos em ordem alfabética, contemplando-os, durante alguns longos instantes, para se ter certeza do que deveria ser realizado. Logo depois de se ver iniciada a grande questão, a cabeça de Getúlio começou a latejar de forma muito inapropriada. Seus ouvidos, tanto um quanto o outro, passaram a escutar algo. De início, quase nada, de tão baixo que se falava. Depois, gradativamente, o homem começou a entender o que estava sendo expresso dentro de sua mente. Percebeu que havia não apenas um monólogo em sua cabeça, mas sim um diálogo. Apesar de tudo, o próprio Getúlio Nutini não era nem sequer o mediador do impasse. Não participava de absolutamente nada do que se passava. Estava ficando cada vez mais irritado.

O Vermelho disse para o Branco que já era hora de pararem de conversar apenas entre eles e colocar o hospedeiro no falatório. “Oh, Senhor Nutini! Por favor, ajudai-nos!” Getúlio deu uma volta de trezentos e sessenta graus para tentar encontrar quem pedia ajuda. Não viu ninguém na rua em que se encontrava. Nem nela, nem em suas adjacências. O jornaleiro passara a dormir um sono profundo e, de tão denso, praticamente mortal. A rua, que sem saída fora feita, tinha mais ninguém além dele e o dorminhoco. Chegou a caminhar para olhar a Avenida dos Santos Anjos, de onde saíra, para entrar na rua em que estava agora, tentando ver algum ser humano suplicante. Ninguém. Vazio. Ausência completa. Voltou para onde estava, diante da banca de jornal, revistas e livros. Olhou para dentro dela e não viu o senhor, que lá dentro desfalecia. Ficou, por frações de minutos, com medo. Mas tal sensação era reservada para os que não tinham medo de certas coisas. Pois, apenas os que não possuem temor de algo, podem saber o que é ter medo de outro algo, ao passo que seria uma sensação contrastante a outra. Tal é a dicotomia da vida. Por Getúlio só conhecer a sensação do temor – que, para ele, não possuía esse nome, ou sequer possuía nome –, ela era a reinante sempre, sem nunca tê-lo abandonado. Quando ia se encaminhando para o muro que encerrava a rua, o Branco gritou para Getúlio: “Pare! Somos nós! Seu inconsciente!” Obedeceu, fitou os tijolos velhos que formavam o muro e tentou enxergar seu cérebro. Ainda que não conseguisse de fato olhá-lo, pelo menos o escutaria melhor. Os três, juntos, formularam a tese da leitura do livro. Por quê? Sabe-se lá, apenas obedecia ordens alvirrubras. Assim dizia o manifesto que o Vermelho e o Branco mandaram que Getúlio escrevesse:

“Um livro deve existir única e exclusivamente para perpetuar, difundir, disseminar uma ideologia. Jamais alguém pode partir do princípio do lucro para se iniciar uma abordagem contista de uma estória. Se assim o fizer, o âmago do livro perde seu valor, seu sentido, seu poder. Quando se preza pelo dinheiro, a forma entra em evidente decadência. Acaba-se o teor de experimento que se propõe a literatura como arte. A literatura entra no caráter comercial, mercantil, fabril. As editoras até encontram conforto nesse quesito, sendo felizes com a resolução da ‘literatura comercial’, mas apenas em curto prazo isso se mostra palatável. Porque, se se pensar em um período mais longo, apenas os livros não comercias encontram a divindade.”

Deu o ponto final, foi em direção ao único estabelecimento da rua, colocou o papel com o “Manifesto da Literatura” em cima do balcão e desejou que alguém algum dia pudesse passar por ali e ler o que estava escrito. Realmente, cem anos depois, alguém passou por ali. Era um menino de dez anos de idade, que acabara de sair da escola. Encontrou um papel amarelado dentro de um quadrado de alumínio que havia pegado fogo alguns anos antes. Leu com certa dificuldade, pois aquela ortografia já não se mostrava mais vigente. Mas ainda conseguiu ler, ao passo que a língua ainda permanecia a portuguesa. Não concordou muito com o que ali estava escrito.

Ao sair da rua sem saída, Getúlio retornou à grande avenida que aparentemente não tinha fim. Precisava, ainda, chegar ao Nada. A avenida mudava de nome a cada cinco quarteirões. Getúlio lera dez nomes diferentes.

Gritou. Jogou-se no chão e chorou como a um bebê faminto e sedento por leite materno. Não compreendia o que poderia estar acontecendo com ele. Passou a sentir falta de seu quarto quadrado, pequeno e opressor. Lá, pelo menos, estaria a salvo e com calefação eficiente. Maldisse o dia em que sua mãe pensou em ter um rebento. Qual o motivo para querer colocar no mundo uma pessoa que correria sérios riscos de ser que nem ele? Era triste pensar em como sua vida era limitada. Nunca alguém lhe disse que o amava, nem seus pais. Segundo eles, o filho era causador de grandes problemas e dizer “nós o amamos” seria algo como um consentimento das atrocidades cometidas por ele. Getúlio não entendia muito perfeitamente quais as acusações concretas que pendiam contra ele. Viveu sua vida da mesma forma. Sairia de casa muito cedo, aos dezessete anos. Estudar poderia ser uma solução para sua angústia interna.

O céu passou a ficar mais denso, com nuvens chegando carregadas de cidades vizinhas. Sem pedir licença, uma melodia foi ouvida pelo coitado estendido no chão a chorar. Definitivamente, estaria iniciando um processo de loucura sem remédios. Correu. Desesperadamente, quis sair de onde estava. Uma tentativa de preservar a suposta sanidade que ainda gostaria de deixar com ele. De olhos fechados, tentando conversar novamente com o Vermelho e o Branco, pensou em acabar com toda aquela situação. Não! Quis ser mais forte! O Nada ainda não se fazia presente.

Quanto mais se desesperava, mais a melodia se tornava clara em sua mente. A música se fazia entendível e a sandice caminhava para fora do corpo de Getúlio. Cambaleava delirante, mas determinado. O Nada não deveria estar longe. Tinha que chegar. “Tenho que chegar.”

Não havia mais rua. Não havia mais cidade. Não havia mais chão. Não havia mais jornaleiro. Não havia mais quarto. Não havia mais nada por ali. Apenas um grande breu se fazia presente diante dele. Finalmente! Que alívio. Deus, se existisse, teve piedade dele. Não aguentava mais ficar caminhando de forma desmedida e desenfreada. Chorou agora de alegria, não mais de tristeza. Tudo se fizera findo. As coisas passadas não tinham mais importância, as do presente estavam acontecendo ali e as do futuro não poderiam mais acontecer, porque o homem estava diante do Nada.

Abriu um sorriso na cara, pensou em como era lindo. O homem mais lindo do mundo. A pessoa mais feliz do mundo... Claro que se fosse antes, ele não estaria fazendo tais afirmações. Mas como estava diante do Nada, tudo era permitido e, como já dito, o passado não tinha mais importância. O mundo sempre o havia oprimido, sendo que agora o horizonte o enchia de esperanças. Colocou a mão em seu bolso direito e, surpreendentemente, encontrou algo volumoso nele. Retirou-o de lá e notou que era uma garrafa cheia de Vodka. Não sabia como aquilo havia parada ali, mas foda-se. Chegar ao Nada bêbado seria mais fácil. Agradeceu a quem poderia ter posto aquilo ali.

Voltar não voltaria. Seguir em frente era o que queria. “Vou ao teu encontro, Mrs. Dalloway. Vou ao teu abraço, Mrs. Woolf.” Entornou dentro do fígado toda aquela quantidade de bebida alcoólica. Queria cantar, como nunca o haviam permitido. Sempre acreditou que quem cantasse, seus males espantasse. Mas os vizinhos e os parentes não compartilhavam do mesmo ditado popular. Gritavam com ele: “Pare, matraca!”

Embriagado já estava.

“If I was young, I’d flee this town. I’d bury my dreams underground. As did I, we drink to die, we drink tonight!”

Assim, bêbado e cantando, como sempre quis e nunca o deixaram, voou ao Nada, de encontro com Virginia Woolf, Mrs. Dalloway e Elefant Gun.

Saltou do precipício. Não caiu. Voou. Flutuou em direção ao Paraíso dos Oprimidos. Lá, de onde as pessoas vieram do pó, do pó passaram e ao pó retornaram. Se algum dia o quisessem retirar do Paraíso, simplesmente diria: “Se vocês querem me mandar para a reabilitação, eu digo não, não, não!”

IX) Amar: Transtorno obsessivo compulsivo

Ontem choveu
E levou minhas lembranças comigo
Agora vivo do presente
Sem passado e incerto do futuro
Perco a esperança
Encontro a pouca bonança
Nem meu amor está aqui
Para acalentar-me em frenesi
Queria ser menos fortuito
Mais virtuito
Mas de que adianta?
Eu estou aqui e você ali

Ontem solou
A vida não estragou
Fui à praia
O povo entornou
Quis ficar
A turma me incentivou
Mas ao cair da noite
Perdi a vida, com sorte
Lembrei-me que tu lá não estavas
E que a vida era bosta emplastada

Alguma coisa aconteceu
Sim, sempre soube que Paris existiu
Vi ali você regressando
A vida cor-de-rosa se fez
Acalentou-me o coração o amasso
Que não quis perder por um compasso
Pois sabia que depois de tudo
Adeus seria dado
Mas Deus não nos tira o que nunca nos foi dado

E vendo a vida em cor-de-rosa
Vou me despedindo de tudo
Com o sorriso no rosto do tristonho
Para acabar com tudo, de coração lavado
Chegando feliz, lá no fundo.

X) O escritor

Quando seu irmão nasceu, com traumáticos dois anos e nove meses a menos na idade da certidão de nascimento, o homem que um dia se propôs a tentar escrever alguma coisa pensou consigo mesmo, sendo a ideia exposta a seu pai logo em seguida, que seria muito interessante saber ler, para que, com isso, pudesse acompanhar a missa de batizado de seu companheiro de pai e mãe, realizada em maio do ano de mil novecentos e noventa e três. Juntamente ao desejo da leitura, veio o da escrita, que apesar de ser aprendida quase que ao mesmo tempo por crianças na escola, possui uma carga de dificuldades muito maior e uma responsabilidade intrínseca imensa a ser carregada pelo feitor do texto escrito e não apenas passivamente lido. Nos dias em que ultrapassava a madrugada almejando transcrever psiquicamente no papel algo de interessante e construtivo para alguém, rogava pragas ao dia em que pensou em querer aprender a escrever, pois era algo tão desgastante e sem muito sentido instantâneo, que poderia vir a tirar as esperanças dos menos corajosos e bem aventurados do reino de Deus. Ler, portanto, era algo tão simples, tão gratificante, tão relaxante e recompensador, que, na balança das virtudes, encontrava-se em patamar completamente superior a qualquer outra maneira de se passar alguma informação para terceiros. Ler coisas dos outros, é claro, pois sempre são os outros que escrevem as melhores coisas, sendo elas consequentemente as melhores coisas para serem lidas. Apesar de tudo, ele até gostava de ler as coisas que escrevia, pois se estava a ler, era porque o texto já havia passado por seu crivo censurador algumas vezes e alcançado uma glória de permanência pouco comum na vida de uma página de papel preenchida por letras. Mas quando quis, há tantos anos atrás, além de saber escrever, ser um escritor, não sabia dos percalços que teria de percorrer para alcançar uma glória permanente apenas durante o tempo em que as pessoas o quisessem ler, ou as pessoas que leem quem o lê quisessem fazer o mesmo.

Isso, portanto, de querer escrever, vem muito por causa dos bons livros que o escritor, durante a vida, tem a oportunidade de ler. Os clássicos e as boas obras, que o deixam de certa forma encontrando o divino ao fim da última página, da última palavra, que o fazem querer escrever também, passar toda aquela alegria, tristeza e, principalmente, melancolia, para os outros. A desgraça, então, é quando se perde a vontade de ler os livros deles e tem-se a prepotência de querer escrever os seus próprios. Ele, coitado, não sabia que, para ser autor consagrado, de renome e bem criticado, teria que ter passado como requisito básico por muitos livros grandes, complexos e eruditos e ter atirado longe grandes tiras de árvores amazônicas tropicais tupiniquins, por tê-las achado feias e sem sentido concreto, ou até mesmo abstrato.

Sua leitura começou com alguns livros de capa vermelha fina, dados por seu pai. Possuíam muitas ilustrações, letras grandes, pequeno texto e muita diversão para as horas pré-sono protagonizadas pelo homem. Rivalizando as leituras com a visão dos filmes em fita (Meu Deus, alguém hoje em dia ainda se lembra de fita de vídeo? Hoje, acho que ainda sim, mas depois, acho que não mais) do Dumbo e do pinguim Arteiro, o escritor encontrou o ensinamento eficiente para a leitura. Em seguida, com a idade já mais avançada, teve o prazer de poder vislumbrar, diante de seus olhos muito cansados e com olheiras de tanto ler e pouco dormir, uma vasta coleção na biblioteca da escola em que estudava, no bairro carioca do Cachambi, mais conhecido por pessoas de outras zonas como “ah, ali no Méier”. Possuindo capas bem desenhadas e conteúdo aparentemente atraente, os livros de Agatha Christie ocupavam uma parte inteira e completa de estante feia e sem cor, sendo esta preenchida pela variedade de felicidades espalhadas por títulos e épocas de lançamento e edição. Tendo saído da aula e passado no local para escolher o primeiro livro a ser retirado da mais nova, ou seria a primeira?, biblioteca de seu conhecimento, ainda que hoje dizer isto o envergonhe, escolheu os dois livros que em seguida seriam sorteados pela coloração. O roxo, por ser cor predominante no momento, teve prioridade. Deixou, por fim, duas obras, que seriam escolhidas pela bibiotecária. Aquela seria a primeira vez, também?, que teria um contato e trocaria palavra com a senhora, sendo ela durante seis longos outros anos grande companheira. Tratando-se de “A mansão Hollow” e “Convite para um homicídio”, Maria Gladys apontou o dedo para o primeiro, permitindo ao então jovem rapaz o direito de deleite, mas a prisão da leitura, que torna-se, a longo ou curto prazo, compulsiva, grandiloquente, esquizofrênica e gratificante.

Dois anos depois, em decorrência de uma promoção de um jornal carioca, juntamente com um paulista, obteve uma coleção de trinta livros, a preços relativamente baratos, quatorze reais ou algo do tipo, somados aos três reais do jornal dominical, na época ainda não assinado por sua família, algo que só viria a ser feito no dia vinte e cinco de agosto de dois mil e cinco. Diferentemente dos outros livros que já haviam sido lidos por ele, pegou em mãos os considerados pelos críticos dos dois jornais os maiores clássicos da literatura nacional e internacional do século XX. Em dois mil e três, por julho, enfim, conseguiu alcançar o altar dos maiores clássicos da grande literatura, daquela que diz muita coisa para não dizer nada, ou daquela que diz coisas fáceis de maneira difícil. Como já tinha sido picado pelo mosquito da compulsão, passou a ler sem meias palavras. Parou no terceiro. Teve a maturidade de conscientizar-se ser novo demais para compreender tal tipo de estrutura frasal, literatura mais que infanto-juvenil, mas literatura de introspecção psicológica, epifanias sentimentais, fluxos de consciência e passagem de experiências de vida que ele ainda viria a ter muitos anos em seguida. Os clássicos – lidos paulatinamente, portanto, durante o longo do tempo – não o fizeram maior, nem mais forte em relação às dificuldades e dilemas da vida, mas o deixaram mais próximo do buraco existencial que há ao fim de cada coisa.

Mas o problema de querer escrever veio antes um pouco do início da leitura dos clássicos, ainda que os tenha deixado de lado por algum tempo, para maturar-se com literatura mais adequada. Não demorou muito para ter a ideia de que, infelizmente, com treze anos de idade ou por aí, nada de adulto poderia vir a ser escrito. Ainda que escrever seja se comprometer e em tudo que se escreva encontre-se vestígios e evidências de passagens, fatos e verdades autobiográficas, naquele instante o homem não estava po-dendo dizer em palavras coladas em folha aquilo que naturalmente estava vivendo, haja visto que sempre vivemos acontecimentos intensos e tristes o suficiente para serem um dia escritos. Sendo assim, poderia ter coisas já para dizer, mas ainda não sabia como. Marcel Proust não escreveu a coleção de sete livros desde os oito anos de idade, sendo elas feitas muito depois, ainda que com temática da infância, mostrando-se complexa e cheia de sentimento e tempo, comprovando que a infância e adolescência são sim momentos tão construtivos e literários, decisivos para a formação e criação de um caráter sólido e que perdura durante todo o resto da vida de uma pessoa, qualquer pessoa, seja ela boa ou ruim, rica ou pobre, escritora ou não escritora, fodida ou não fodida, por alguém ou pela vida.

Tendo decodificado a informação de que não seria capaz de escrever nada muito alguma coisa nem para si mesmo, quanto mais para os outros, chegou a uma conclusão solucionadora de problemas excelente: dentro de seu mundo interno imaginário e psicológico, só ele e apenas ele e mais ninguém tinham acesso a determinados livros. Ou seja, o escritor acreditou ou se fez acreditar que única e exclusivamente ele tinha possibilidade de folhear, ler, sonhar, livros que estavam guardados na biblioteca da escola. Como notou que eles já eram bem antigos, não apareciam na mídia e ninguém da escola praticamente os pegava, imaginou que era ele o único a ter aquelas preciosas coisas em mãos. Fora da escola, em casa, um tio, irmão de sua mãe, havia deixado vários livros um tanto que abandonados. Muitos anos depois o escritor chegou a conclusão de que sua compulsão por livros foi gerada em razão da genética proveniente dele. Ao ter a informação de que supostamente ele, escritor, era o único leitor de certas obras, pensou que poderia enganar os desavisados, fazendo com que copiasse os livros e os repassasse, como se fossem dele mesmo. Ninguém saberia que obras eram aquelas, ninguém na escola lia aqueles livros, ninguém nos jornais mencionava a existência por menor que seja de qualquer um deles. Sendo assim, aquele tesouro era dele, unicamente. Um achado, o caminho mais fácil e rápido para a felicidade, tudo de bom e do melhor, o reconhecimento como grande escritor para toda a vida. Um dos principais fatos que mais o animavam para copiar livros já consagrados era sua idade diminuta. Agregaria muito valor escrever profundidades tão profundas e complexidades tão complexas apenas aos treze anos de idade, ou até menos. Um gênio precoce, diriam todos. Mas como alegria de pobre dura pouco, encarou a questão de frente e vislumbrou o triste fim e verdade: a única vantagem, benesse e tantos outros adjetivos positivos, que aquilo o traria, se constituía em ter alcançado, muito rapaz, uma agilidade tremenda na digitação, sendo mais veloz até que uma dessas secretárias que fazem curso de datilografia. Daria um banho até nessas de antigamente, muito mais sérias e empenhadas. Sua habilidade era tanta que até seu pai dizia para que o escritor pusesse em seu currículo a rapidez na escrita computadorizada. Evidentemente, ele achava isso uma bobagem e refutava.

Segundo os analistas pelos quais o escritor passou até o exato momento de sua vida, o fato de ele copiar obras alheias, como “O jogador”, de Dostoievski, “Hamlet”, de Shakespeare, seria um desencadeamento para a descoberta de sua própria personalidade. (Sim, ele achava que Dostoievski e Shakespeare não eram tão conhecidos assim e poderiam passar batidos pela censura das editoras. Mas sua felicidade durou algum tempinho: chegou a mostrar a cópia de três capítulos de “O jogador” para Maria Gladys e ela disse: “Você é um grande escritor; uma grande pessoa.” O remorso sempre vinha ao lado, pois sabia que aquilo não era genuinamente dele.) Por todos que passou, adeptos sempre foram de Sigmund Freud e Jung. Falaram que o escritor, como adolescente, não possuía, ainda, pelo menos para si, uma identidade completamente formada e que, por isso, necessitava de um apoio externo aonde por ventura viria a se espelhar. Nunca chegou a saber exatamente se aquelas obras copiadas vieram a interferir na sua escrita futura, mas teve a certeza de que nunca chegou a ler de verdade aqueles livros, os copiando pela força momentânea e imediata que eles haviam causado em seu interior. Por conta própria, ajudado pela teoria da formação identitária que analistas chatos o haviam im-putado, entendeu o motivo pelo qual copiava a letra do coleguinha ao lado, na sala de aula. Tal hábito durou até o primeiro ano do ensino médio, surpreendentemente. O escritor sempre, logo que sentava-se na carteira, pensava mentalmente consigo próprio: qual letra hoje copiarei? Geralmente a escolhida de um dia durava por quase um mês, sendo posteriormente escolhida por outra supostamente mais bonita e com mais personalidade implícita. Muito disso veio porque ele acreditava que a letra estava unida ao modo da pessoa viver. Seu caderno sendo composto por letras que ele copiou de outrem o fazem, consequentemente, ter a mesma personalidade, atitude e alegria que o caderno da pessoa da letra copiada. Essa sensação era estendida a toda uma gama de atitudes vividas e cotidianas. Pegou-se a letra, pegou-se a vida, de terceiros. Não achando que poderia ter vida própria e pensamentos próprios que o fizessem poder escrever um livro, um dia olhou no espelho e disse: “Uma pessoa tão esquisita como eu definitivamente não tem como ser outra coisa na vida. Apenas escritores e malucos têm hábitos como os meus, transtornos obsessivos compulsivos como os que eu tenho, atitudes apersonais como as minhas, uma vida tão vazia externamente, mas ao mesmo tempo agitada internamente. Portanto, eu não sou nada e, por isso, continuo sendo nada.” No entanto, seu primeiro livro, por mais que tenha visto que aquilo não levaria a lugar nenhum, foi iniciado com algo já anteriormente escrito por alguém. Aquilo era, para ele, seu sumo, sua razão, sua explicação e entendimento. Não tendo nada a fazer no mundo, escreveria, apenas. Havia sobrado e definitivamente na terra dos homens e mulheres e crianças e cachorros e gatos e maritacas não existiria lugar para ele. Entendeu que escrevia porque era um desesperado e estava cansado, não suportando mais a rotina de ser sempre ele e se não fosse a coitada da sempre novidade que é escrever porcamente, ele se morreria suicidado simbolicamente todos os dias. Preparado, porém, estaria, para sair pela saída da porta dos fundos. Portanto, o escritor experimentou quase de tudo na vida, inclusive a paixão e o seu desespero subsequente. Agora, só desejaria ter o que tivesse sido e não foi. Ai. Tudo na vida, então, é uma hora. É uma hora de uma estrela, morrendo logo em seguida.

Quando pensava em escrever, pensava mais à noite, quase na hora de dormir. Ao entrar no computador, tentava escrever, mas não tinha muito sucesso na empreitada. Foi percebendo que, quando via uma folha de papel branca, sem nada ainda escrito, vinha como se fosse um bloqueio, algo difícil de se compreender, que o deixava amordaçado e não o permitia sair do lugar onde estava sentado, imóvel, com a mente oca. Isso ocor-rendo, levantava de seu pequeno falso trono e ia para a cama, pois no dia seguinte a vida continuava. Ao fechar os olhos, mentalmente, constatava – com muito ódio no coração e perguntas incessantes das razões causadoras –, que escrevia as melhores passagens e textos mais lindos, que nem o melhor dos escritores poderia pensar em escrever. Ao dormir, tinha a certeza de ser o maior escritor do mundo, com tiradas primorosas e encontro de palavras exatamente perfeitas, mas tinha a infelicidade de notar que aquele momento era breve e que o fim estaria chegando, logo que alcançasse o sono profundo, ao sonho atormentado. Já até tentou escrever logo em seguida ao pensamento dos olhos fechados, mas seu cérebro é mais esperto que ele e sabia que o epifânico chegou em momento de olhos fechados, devendo ficar restrito àquele momento e à minha (inconsciente, ato falho, perdão) pessoa. Que bodega. Sonho se fosse bom, em alemão não seria quase que “trauma”. A experiência de ser bom escritor apenas no sono o traumatizou.

O escritor utilizava, apenas para exemplificar aos amigos e familiares tal situação, o trecho a seguir, ressaltando que o havia pensado ao quase dormir: “Sinceramente, a dor dói tão doída, que quando ela doi, chega a doer tanto, que eu chego a gritar um grito alto, que chega tão longe e ao mesmo tempo não chega a ninguém, que acaba me fazendo ficar com mais dor, fazendo com que volte tudo ao princípio, matando e consumindo as almas doloridas e sofridas dessa África de sofrimentos mundanos e sem sentido, que existe internamente dentro de nós mesmos.” Um gaiato, em certo dia, perguntou: “Como pode você dizer que não consegue escrever bem e que as boas escritas se restringem ao sono e nada mais, se você conseguiu transcrever este trecho para nós?” Meu Pai do Céu, que alegria tomou conta da alma do coitado do escritor. Sim, ele podia transcrever a escrita do sono, mas depois de um tempo notou que isso ocorreu apenas daquela vez, não mais depois, sendo todas as tentativas posteriores frustradas.

Sua vida estando boa, não dava muito bons frutos, mas quando estava abaixo do nível da merda, aí sim, dialeticamente, via o paraíso diante de si e conseguia escrever. Apenas pequenos trechos isolados e soltos, sem muita coesão e coerência entre si. Um romance, então, pelo escritor, nunca seria escrito, continuando nesta dinâmica. Vendo que nunca sairia daquele vício de não conseguir se expressar e que muito da culpa era de seus pais, que sempre o exigiram explicações antes dos atos, sempre o oprimiram e o deixaram completamente inseguro diante da quase totalidade de pendengas da vida, quis então ser um escritor confessional, desses que dizem tudo de si mesmos nos livros e que podem se dar ao luxo e à enganação de dizer que escrevem literatura ficcional, portanto inventada e não condizente com suas vidas reais, dando um valor maior a escrita. Pois há de se convir que escrever sobre frustrações próprias é muito mais fácil que escrever sobre as alheias e desconhecidas, portanto. Você tem apenas que encontrar palavras certas e difíceis para ter lugar cativo na Academia Brasileira de Letras.

O escritor, no fim das contas, nunca se considerou, para terceiros, em sua vida, um escritor. Tal profissão, podendo ser chamada assim, era apenas considera dele para consigo mesmo. Quando qualquer documento o perguntava a profissão, atividade, até ele imaginava o quão ridículo seria colocar ali o substantivo “escritor”. As profissões dignas são medicina, engenharia, direito, e não escritor. Ninguém é escritor. As pessoas, na realidade, estão escritoras. Esse é o grande problema que a questão problematiza. Se a maioria dos seres humanos que desejassem escrever alguma coisa ganhassem dinheiro nesse processo dolorido, as coisas seriam bem melhores e os suicídios cairiam de forma bem significativa.

O escritor, então, depois de passar algum tempo sem nada fazer, apenas pensan-do em, decidiu agir. Pensou. Escreveu. Apagou. Reescreveu. Pernoitou. Imprimiu. Pagou. Fotocopiou (para não fazer propaganda espontânea). Procurou. Editora. Anos. Achou. Editou. Lançou. Ganhou? Li. Lestes? Leram? Lerão? Lerinho? Não. Procedimento? Parar e voltar à biblioteca da escola para copiar livro dos outros, para depois perceber que todo mundo já conhece aqueles livros e jogar tudo fora. Fazendo isso algumas sucessivas vezes, você, porque isso aconteceu com o escritor, se dará conta de que existem coisas que tem mais valor na vida, como andar de bicicleta e passear com o cachorro na rua. Mas até o escritor chegar nesta conclusão, ele já havia perdido quase toda a sua vida em nada, porque muito se escreve e os outros não perderão o tempo deles lendo coisas que você está escrevendo. Fik a dik: desista de contar como foi legal seu dia de garota emo pré-adolescente no blog e de como você a-mou o CD do Cine, porque ninguém se importa por isso e muito menos com você.

Tudo já foi escrito por todos os outros anteriores. Mas, então, porque escrever? Se não escreve-se, explode-se. Simples assim.

XI) Poemas solitários

Pas les beaux soirs d’été, j’irai dans les sentiers
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:
Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds:
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.


Je ne parlerai pas, je ne penserai rien...
Mais un amour immense entrera dans mon âme,
Et, j’irai loin, bien loin; comme un bohémien
Par la Nature, - heureux comme avec une femme!*


Sensation – Arthur Rimbaud

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A minha vida vazia olha o seu redor
E nota que as situações são complexas e convexas.
Vejo-me diante de mim mesmo e não enxergo ninguém,
A casa está vazia e nem tenho outrem.

ANTOS E ÊNSIAS

Vivia calado pelos cantos
Feliz pelo simples fato da existência

Passou a enxergar melhor a vivência
E começou a debulhar-se em prantos.

UM DIA APRENDO

Um dia aprendo a ser feliz
Um dia aprendo a me amar
Um dia aprendo a correr
Um dia aprendo a não chorar
Um dia aprendo o que é viver
Um dia aprendo a me calar
Para, no fim, poder morrer,
Em silêncio.

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* “- feliz como uma mulher!”

XII) Os garotinhos

O garotinho branco começou a estudar na escola do bairro em que morava no ano de mil novecentos e noventa e cinco. Fora várias outras situações que sempre retornavam à sua mente, mesmo muitos anos após deixar de frequentar tal local de ensino, recordava-se de quando, pela primeira vez, por lá adentrou. Havia, logo após o portão principal e entre a piscina esportiva, do tamanho de uma bacia d’água, e a bandeira na-cional, uma leve rampa, que dava acesso às duas maiores salas de aula. Franzino que sempre foi, o garotinho branco surpreendeu-se com a imagem da jovem senhora loura de cabelos curtos, sempre com seu leque na mão direita, a olhá-lo subir o elevado, em direção à classe. Era, dona Vera, uma pessoa austera, porém acessível, sempre que conveniente e necessário. Construiu, por meio de uma vila, que existia no local, uma escola, onde ocupou o posto de dona e diretora pedagógica. Era uma escola bem bairrista, que chegava apenas até a quarta série do ensino fundamental e que não possuía mais que oito salas de aula. Mas como sempre fora um bom estudante, comportado, compenetrado e praticamente invisível diante de sua pequenez física e existencial, em detrimento da primeira impressão da mulher, nunca teve muitos problemas com a diretora jovem senhora, nem com qualquer outra pessoa na instituição possuidora de cargo hierarquicamente superior ao seu.

Em contrapartida, a vida, geralmente, não é sempre uniforme, e ele, uma pessoa que, por mais qualidades que possuísse, por vezes dizia coisas um tanto fora de auspicioso momento, teve seu dia de criminoso endiabrado, vil e sem escrúpulos pelo irmão próximo. Exerceu sua imoralidade diante de algo e em uma situação que apenas a inocência infantil é capaz de proporcionar.

Cursava, tendo como tia a professora Regilene, que tinha uma irmã chamada Regina, na mesma escola, levando as pessoas a acreditarem que os pais das duas tinham uma queda pelo “re”, a segunda série. Considerações inúteis reprimidas, as aulas eram ministradas sempre sem muitos contratempos. Todos chegavam à escola, tendo que pouco caminhar, o garotinho branco, até a ela chegar. Quando lá já se encontravam, todos os alunos de todas as séries reuniam-se no pátio, se é que podia-se chamar aquilo de um, haja visto seu diminuto tamanho em relação a um pátio de uma escola ginasial ou abarcadora de todas as séries do ensino brasileiro. Essa aglomeração ocorria em consequência do Hino Nacional. Uma fila era feita em ordem de tamanho, o que fazia o garotinho branco sempre ficar bem na frente de todos, concorrendo, vez ou outra, com o garotinho branco de número dois, que não disputava o lugar detrás, mas sim o da frente. Uma discussão burra, naturalmente, para os olhos mais trabalhados de uma sociedade mais etariamente avançada. No entanto, para o garotinho branco número um e para o garotinho branco número dois, era uma glória poder ser o primeiro da fila. Tirando as ideologias anárquicas e de esquerda, que provavelmente desprezariam tal momento, como ele sendo um resquício da ditadura militar que afligiu a nação durante muitos anos, há de se convir que aquela escola era um fruto de tal período, tendo sido inaugurada no ano de mil novecentos e sessenta e quatro e possuindo em sua grade profissional pessoas que compactuavam, sobremaneira, com tal época obscuro de um Brasil estranho. Para o garotinho branco, não o número dois, mero coadjuvante neste relato, mas sim o primeiríssimo, era um modo interessante de emocionar-se. Sem saber muito bem a razão, pois nunca saíra de sua própria cidade, não escutava a “Hora do Brasil”, não tinha ideia ainda do que era o “Jornal Nacional” e nem quem era Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real, ele emocionava-se ao cantar as tão belas passagens do Hino desta nação. Ainda que não soubesse exatamente o que aquelas palavras significavam, era debulhante ver um símbolo ser ostentado em homenagem à pátria! Orgulha-se até hoje da professora que o obrigou a decorar o Hino Nacional, o Hino da Bandeira e tantos outros, pois hoje, se algum repórter de televisão o quiser abordar na rua, para uma pergunta: “Você sabe cantar o Hino Nacional?”, sim, ele diria: eu sei. Foi, então, no último ano do ensino fundamental, já que os únicos estudantes que tinham o direito de hastear a bandeira eram os melhores do último ano, chamado para tal. Um evento, considerou sua família. Para isso, teve que chegar mais cedo na escola, antes que todos, pegar a bandeira guardada e dobrada e hasteá-la, sim, para o céu!

Mas de nada isso adiantou, já que o garotinho branco havia cometido, alguns anos antes ao do único hasteamento de bandeira de sua vida, um dos maiores delitos que ele poderia vir a poder imaginar em seus sonhos, ou pesadelos, mais pérfidos e soturnos. O episódio gerou, anos depois, sua compulsiva vergonha alheia. Era incapaz de ver alguém passar por algum constrangimento, ou situação embaraçosa, sem que, com isso, sentisse internamente que aquilo acontecia, metafisicamente, com ele próprio e, se duvidar, sentia mais que a própria pessoa que estava sendo alvo de tal vergonha e humilhação, pública ou privada, física ou verbal. Tudo em razão da vergonha que ele sentiu de si mesmo naquele fatídico dia. Não se sabe o motivo, pois o seu subconsciente, de tão traumatizado, só o permite lembrar da situação a partir do instante em que o xingou. A razão para isso não era mais perceptível para o garotinho branco.

Estavam todos em sala de aula, antes da hora do intervalo. As cadeiras, de madeira velha e riscada, eram agrupadas em três, formando-se, com isso, apenas uma, compartilhada por três crianças moribundas, dispostas, ou não, a aprender a ler, escrever e a contar. Fazia muito calor naquele dia, e todos sentiam a falta da menina que sentava na última carteira. Na semana anterior, ela brincava de balanço na mesma, independente da aula que estava sendo dada diante de seus olhos sempre tão verdes. Escutou-se um barulho e quando os alunos deram-se por si, a secretária já a punha nos braços para leva-la ao pronto-socorro. A impressão que se tinha era de que ela havia perdido a ponta do dedo, que nem Luiz Inácio. Ficando fora uma semana, a ponta do dedo, que contava-se e acreditava-se, havia fugido, encontrava-se agora branca, com uma espécie de esparadrapo. A coitada, como se a desgraçada doída não fosse pequena, apareceu com um tampão no olho esquerdo, restringindo sua beleza, sendo que ela nunca deu muitas explicações para aquilo, mas o fato é que ela nunca mais foi odiada pelos meninos da classe, sentimento compatível, àquela idade, ao amor que os adolescentes sentem pelas senhoras que sentam-se ao seu lado, tanto na escola, quanto no ônibus, quanto em qualquer lugar. Então, a menina não viu o que aconteceu. Pelo menos, menos uma pessoa para testemunhar o julgamento em praça pública.

Wilson, era seu nome, ou ainda é, pois o garotinho branco acha que ele ainda não está morto. Não sentava-se muito recorrentemente ao lado do garotinho branco, mas naquele dia fazia companhia a ele. De memória, lembra-se que Wilson era uma criança difícil, não muito aplicada aos estudos e que sempre chorava antes de entrar na escola. Mas era, supostamente, seu amigo, e isso não entrava no mérito de suas capacidades intelectuais para poder o ser, ou não.

– Cuidado, você vai pegar febre de macaco! – berrou o garotinho branco, ao perceber que o outro colega que sentava-se ao lado esquerdo de Wilson o iria tocar.

Porque dizer isso? O que o levou a fazê-lo? Era uma brincadeira? Se o foi, deve ter sido muito desentendido. Nunca desejou tanto que alguém, depois das consequências do fato, não o tivesse escutado, pois, de repente, a professora, do alto de sua altivez e poder, bradou:

– O quê?!

É impressionante como as professoras perdem completamente sua suposta autoridade perante os alunos depois que eles passam a chamá-las de “professora”, ao invés de “tia”. As professoras primárias, pelo menos na época do garotinho branco, eram tão autoritárias e respeitadas, que os alunos chegavam a ter medo delas como se tinha medo de uma mãe e elas tinham uma pseudo autoridade de castigá-los, assim como se faz uma mãe, sendo que o medo do alunado perante elas era tanto, quando elas brigavam e chegavam perto, que era como se elas fossem espancá-los.

Wilson deve ter olhado fixamente para ele, pois se realmente olhou o garotinho branco não se lembrou. Só sabe que foi levado, pela tia Regilene, até a cozinha da escola, onde encontravam-se as duas serventes que auxiliavam na organização do colégio. Lá, apenas uma veio discursar. A professora disse:

– Ele chamou o outro de macaco.

A servente também era negra.

– Meu filho, eu criei dez crianças na minha vida e com muita dignidade.

Foi isso que ela disse, ou pelo menos só isso que o garotinho branco lembra-se da conversa. Com isso, ele crê, ela deve ter querido dizer que ela foi, “mesmo” negra, bem capaz de cuidar de outras vidas e que sim, ela serviu para algo e que não era inferior a ninguém.

O garotinho branco sentiu, depois, em casa, e mesmo no futuro, tanta vergonha do que fez, tanto constrangimento pelo ato e pela notoriedade pública e explícita do mesmo, que a vontade que tinha era de atirar-se em um poço e, de dentro dele, nunca mais sair, para tentar purificar-se do pecado que encontrava-se alojado dentro de sua boca, mas que tinha certeza, não dentro de seu espírito, pois na verdade nunca teve preconceito com pessoas de cor. Ou supostamente não teve, porque não lembra-se de como era sua vida em relação a essa questão antes do que aconteceu, mas só sabe que, depois disso, nunca mais xingou ninguém por sua cor de pele, situação financeira, nem outra discriminação minoritária.

Achando que tudo ficara bem, aparentemente, que seja, Wilson convidou o garotinho branco para seu aniversário. Que lindo.

No dia da infeliz tragédia, a professora não deixou ninguém sair para o recreio, “por causa dele!”. O único que saiu foi Wilson, sozinho. Todos juntos ficaram presos, de crime e castigo, confinados na sala de aula, enquanto Wilson encontrou sua liberdade de meia hora no pátio, ao lado dos brinquedos. Foi, então, a caminho de sua alegria instantânea, ainda que sozinho.

XIII) A via crucis do corpo

Pequeno nasci e assim permaneci depois por toda a minha vida, tendo passado a diminuir o já diminuto corpo a partir da idade velha, onde os ossos já não são mais tão resistentes e começam a definhar por vontade aleatória e própria. Não passei dos um metro e sessenta centímetros de altura, mas mesmo acreditando que poderia utilizar essa informação a meu favor, pelo menos no que se tratasse de Exército e serviços militares, ledo engano. Fui obrigado a ir para Triagem pelo menos umas quatro vezes durante os meus dezoito pobres vividos anos. Foi constrangedor perceber que eu não seria o que imaginava que viria a ser quando chegasse a uma idade decente. Quando era do tamanho relativamente normal para pessoas que tinham a idade que eu tinha, pensava que seria, ao chegar à maioridade, ou muito próximo dela, um homem esbelto, magro, alto e um tanto semelhante ao espelho mais fidedigno que possuía em minha casa, um tio que todos diziam e que eu percebia que era fisicamente parecido comigo. Mas como herdei o lado pigmeu da família, nada adiantaria de medicamentos tomar, pois baixinho era para eu ficar. Portanto, prendi-me a vida toda nos grandes discursos que ouvia quando se estava a esmorecer: dentro de todo pequeno frasco, existe uma grande fragrância. Isso confortava-me de um modo extremamente lamuriento e piegas, ainda que me fizesse uma das pessoas mais felizes no mundo dos anões de jardim.

Tenho, também, para agregar valor à minha situação, manchas que o médico disse serem chamadas de café-com-leite. O braço esquerdo do meu corpo está infestado por elas. Esteticamente, as pessoas me perguntam se é algum machucado, se me feri, se é uma queimadura. Não. São apenas marcas. Um outro médico, dos muitos que já havia ido para tratar dessas questões, ressaltou que poderiam ser manchas surgidas através de problemas emocionais. Sim, problemas da emoção. Eu sou muito emotivo. Choro bastante. Provavelmente é o lado feminino que envolve a dialética do corpo freudiano berrando. Acredito mais na tese de que essas marcas são uma mutação genética do vitiligo que já deixou Michael Jackson, minhas bisavó e prima de segundo grau branquelos.

Ao vir ao mundo, mais pela vontade de meus pais do que a própria, tinha algo na cabeça. Não era juízo, certamente. Na verdade, ao nascer, vim com um ovo na cabeça. Tinha pouco cabelo no todo, mas em volta desse ovo, era só mato. Se eu me visse bebê, sairia correndo com medo de Satanás. Apesar de tudo, Deus é bom e Jesus escreve certo por linhas tortas: meu cabelo cresceu e a cabeça foi preenchida pelo mais loiro e liso ca-belo. Ao constatar que felicidade moribunda dura pouco, aos cinco anos de idade, minha mãe levou-me ao cabeleireiro para um corte radical. Máquina foi passada e depois disso meu pobre coitado lindo cabelo nunca mais foi o mesmo. Hoje vivo da vergonha de um cabelo crespo e armado, que fez minha cabeça, já grande, ficar maior ainda. Já pensei em raspar, mas como deixar aquele ovo, emandioma, cachinho, à mostra? Um tio que é médico disse que eu não poderia operar, arrancando o mal pela raiz, pois, se o fizesse, cabelo nunca mais cresceria naquela área, pois a cirurgia pegaria o coro cabeludo. Tive, então, que resignar-me ao ovo e agradecer pelo fato de ele ser localizado bem no meio do crânio, permitindo que esse cabelo tão ruim o escondesse da sociedade. Meus amigos de escola, na adolescência, aquela fase criada pelo capitalismo estadunidense e que causou-me mais conflitos que tranquilidade, sempre me lembravam que eu alguma coisa tinha na cabeça. Por mais que meu cabelo escondesse a aberração, uma abertura singela se fazia naturalmente, fazendo com que, ao cabelo estando mais curto, pessoas próximas percebessem a situação anormal. Enfim, na hora tentar disfarçar, mas como certas atitudes na vida você não entende porque as toma, um belo dia, quando isso aconteceu, quis ser excêntrico e expus a anatomia de minha cabeça para a pessoa mais fofoqueira da sala de aula. Pronto. A merda já estava feita. Por a adolescência e suas situações e conjecturas ridículas serem passageiras, depois de alguns anos, os mesmos amigos deixaram de fazer chacota de mim por causa disso e passaram a ser pessoas mais conscientes com a deformidade alheia. Até minha família nunca mais comentou disso comigo. Então, um ovo que não se vê, por estar muito longe dos meus olhos, é um ovo que o meu coração não sente. O problema ainda é, infelizmente, ter que rezar para que a pessoa que está me beijando não passe a mão pelo alto de meu cocuruto; vai que ela grita e chama os órgãos de saúde?

Meus pés sempre foram muito pequenos e curvos. Tais características, por mais que sejam admiradas por alguns especialistas em pé, não eram tão agradáveis para mim. Eu queria ter pé de homem, e eles são grandes, chatos e feios. Ao mesmo tempo, minhas mãos eram realmente coisas que eu gostava muito. Pareciam mãos de pianista: os dedos grandes, finos, bonitos definitivamente. O problema estava nas unhas rosas. Por a pressão ser muito baixa, as unhas não eram de uma cor muito natural. Sempre escuta-se se eu pintei as unhas para algum evento especial. Gentalha.

Na barriga de minha mãe fui lutador de boxe. Minha orelha esquerda era comidi-nha na parte superior. Não era nada muito explícito, mas como eu não poderia deixar de reparar, me lamentar sobre e tentar encontrar nos outros a pena e piedade necessárias para que me amassem mais, percebi nisso um obstaculuzinho para a plena felicidade. As minhas orelhas eram grandes, o que era muito reconfortante. Dizem que quanto maior é a sua orelha, mais tempo você viverá. Agarro esta ideia com o maior dos afincos e realmente penso que, pelo tamanho de minhas orelhas e pelas linhas tão grandes que perpassam minhas palmas das mãos, viverei em torno de cem anos, ou mais.

Para não dizerem que não falei das flores, além do defeito do rosa dos dedos, o dedo em que mando tomar no cu tem um calo. A intelectualidade proporcionou-me isso, pois o lápis e a caneta sempre são apoiados nesse pobre e sacana dedo, para escrever alguma coisa. Meus braços eram grandes, sempre o foram, em relação proporcional ao restante do corpo. Pensei que eles já poderiam ter crescido antes e que o corpo depois o acompanharia, mas equivoquei-me, novamente. Os braços grandes continuaram e o corpo parou mais ou menos onde sempre se encontrou: próximo ao chão.

Os mais de uma década de natação não fizeram efeito quanto ao meu maior problema, o tamanho. As únicas coisas que mais cresceram em mim foram os ombros e a cabeça, sendo essa não tão necessariamente em razão da atividade física. Sendo assim, por tudo isso, tive que encontrar algum modo de me socializar, ser bem visto e quisto pelos outros e aceito de modo eficiente na sociedade. Consegui ser, por isso, uma pesso-a de humor muito ácido e sagaz, pois todos os dias, antes de sair de casa para algum evento, piadas, frases e textos eram mentalmente decorados e passados em resumo pela mente, para fazer bonito na hora da apresentação. Simpático sempre fui, para agradar os outros e ser sempre lembrado como aquele cara legal. Os feios e limitados precisam ser os melhores em tudo, porque precisam conseguir as coisas com maior esforço.

Auxiliando na regressão geométrica de meu tamanho, a coluna possuía uma lordose desconfortante. Sendo apenas isso, vá lá, mas a dor que sentia era tanta, que joguei-me, certa vez, ao chão, chorando de lamurientas dores. Falar desses assuntos com vovó era um prato cheio. Não sei se esses casos são hereditários, mas sei que ela igual-mente tinha problema semelhante e, quiçá, bem pior. Compartilhávamos, como se eu também um idoso fosse, que conversa com seus parceiros sobre dor, morte e remédios, nossas colunas curvadas. Esse fato, sempre pensei, ao ver-me diante do espelho, caso não existisse e minha coluna fosse melhor, poderia deixar-me alguns centímetros mais alto, fazendo com que sentisse-me menos inseguro ao chegar em uma balada cool. Apesar de tudo, por algum tempo, a coluna neste estado fez-me uma pessoa ligeiramente feliz. Como era uma lordose, involuntariamente, minha bunda, traseiro e nádegas eram mais arrebitados, como se eu tivesse, mesmo, uma bunda grande. Vocês não sabem como as pessoas gostam de apertar uma bunda grande. O problema é que, com o tempo, – tudo bem, tempo não, alguns segundos, haja visto que com apenas vinte anos minha bunda já não era a mesma – o traseiro começou a, pelo menos na minha imaginação e dentro de minha calça skinny, ficar menor e, pior, sem roupa, via-se todos aqueles caminhos que não levavam a lugar algum, tortuosos e feios, mais brancos que o próprio branco da pele que nunca viu sol, fazendo com que tudo ficasse extremamente visível. Sim, as estrias tomaram conta de minha bunda e, gradativamente, foram alcançando a perna.

Minha forma física sempre foi a de um palito de madeira de espetar dentes em churrascaria. Até que isso é bom. Para uma pessoa pequena, é interessante ser magro, pois é proporcional. Sendo gordo, nem estaria aqui escrevendo, pois já teria suicidado-me há séculos, rolando pelo Alto da Boa Vista, em direção aos carros. Teimosamente, na fase do fim da adolescência, onde a escola vai passando e começa-se a ir mais à festas e, principalmente, boates, inscrevi-me na academia do clube. Verão, época de fim de ano, tudo levou-me a isso. Tanto os corpos sarados da praia quanto a ideia de uma mu-dança completa de vida, proporcionada pelo Ano-Novo. Não sabia que entristeceria-me o fato de que, além de não conseguir, nem por um decreto, pegar corpo, as pessoas que lá iam, mais altas, bonitas e esbeltas que eu, aparentemente compravam roupas novas, de grife, para lá suar. Eu, na sorte, ia com a blusa que estava fora do armário e usada dentro de casa há uma semana. Inferior, mais do que já era, sentia-me. Mas como certas pessoas erram os mesmos erros consecutivas vezes, quis voltar para a academia um ou dois anos depois após a primeira e falida tentativa. Oito meses foram freneticamente passados naquele antro perdido, para absolutamente nada. Os professores, muito motivadores, diziam que cada corpo é um corpo e que cada um possui seu tempo, mas eu não consegui nada, fora um pouquinho de uma barriga mais dura. O que realmente parou-me, no entanto, foi uma crise de pedra renal que me afastaria de lá por apenas um mês, sendo que depois nunca mais voltei. Qual razão, motivo ou circunstância? Gastar dinheiro, suar que nem louco, não conseguir resultados e ainda sentir-me mendigo? Sendo assim, continuo pequeno e fracote, tendo a onda de fama do estilo nerd e do estilo magro, tatuado e descolado, salvo a minha vida, pelo menos por agora.

Tenho vergonha de ir à praia, nem por minha magreza, mas porque meus peitos, ao redor dos mamilos, possuem pelinhos dispersos e eloquentes. Pelinhos! Olho para aquilo e me sinto um ornitorrinco. Por causa dos pelinhos dos meus peitinhos, sentei e chorei. Na competição, os pelinhos do peitinho perdiam apenas para as espinhas na cara. Não é que eu tenha tido muitas, pois já conheci casos bem mais berrantes, mas algumas minhas deixaram marcas, principalmente nas costas, mas isso de menos, pois ainda esconde-se, mas fiquei com duas marcas no rosto, bem ali, na cara de todos. Junto, ainda há as marcas de catapora, outrora adquirida.

Definitiva e peremptoriamente, uma pessoa feia.