Pas les beaux soirs d’été, j’irai dans les sentiers
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:
Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds:
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.
Je ne parlerai pas, je ne penserai rien...
Mais un amour immense entrera dans mon âme,
Et, j’irai loin, bien loin; comme un bohémien
Par la Nature, - heureux comme avec une femme!*
Sensation – Arthur Rimbaud
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SÓ
A minha vida vazia olha o seu redor
E nota que as situações são complexas e convexas.
Vejo-me diante de mim mesmo e não enxergo ninguém,
A casa está vazia e nem tenho outrem.
ANTOS E ÊNSIAS
Vivia calado pelos cantos
Feliz pelo simples fato da existência
Passou a enxergar melhor a vivência
E começou a debulhar-se em prantos.
UM DIA APRENDO
Um dia aprendo a ser feliz
Um dia aprendo a me amar
Um dia aprendo a correr
Um dia aprendo a não chorar
Um dia aprendo o que é viver
Um dia aprendo a me calar
Para, no fim, poder morrer,
Em silêncio.
_______________
* “- feliz como uma mulher!”
sábado, 21 de agosto de 2010
XII) Os garotinhos
O garotinho branco começou a estudar na escola do bairro em que morava no ano de mil novecentos e noventa e cinco. Fora várias outras situações que sempre retornavam à sua mente, mesmo muitos anos após deixar de frequentar tal local de ensino, recordava-se de quando, pela primeira vez, por lá adentrou. Havia, logo após o portão principal e entre a piscina esportiva, do tamanho de uma bacia d’água, e a bandeira na-cional, uma leve rampa, que dava acesso às duas maiores salas de aula. Franzino que sempre foi, o garotinho branco surpreendeu-se com a imagem da jovem senhora loura de cabelos curtos, sempre com seu leque na mão direita, a olhá-lo subir o elevado, em direção à classe. Era, dona Vera, uma pessoa austera, porém acessível, sempre que conveniente e necessário. Construiu, por meio de uma vila, que existia no local, uma escola, onde ocupou o posto de dona e diretora pedagógica. Era uma escola bem bairrista, que chegava apenas até a quarta série do ensino fundamental e que não possuía mais que oito salas de aula. Mas como sempre fora um bom estudante, comportado, compenetrado e praticamente invisível diante de sua pequenez física e existencial, em detrimento da primeira impressão da mulher, nunca teve muitos problemas com a diretora jovem senhora, nem com qualquer outra pessoa na instituição possuidora de cargo hierarquicamente superior ao seu.
Em contrapartida, a vida, geralmente, não é sempre uniforme, e ele, uma pessoa que, por mais qualidades que possuísse, por vezes dizia coisas um tanto fora de auspicioso momento, teve seu dia de criminoso endiabrado, vil e sem escrúpulos pelo irmão próximo. Exerceu sua imoralidade diante de algo e em uma situação que apenas a inocência infantil é capaz de proporcionar.
Cursava, tendo como tia a professora Regilene, que tinha uma irmã chamada Regina, na mesma escola, levando as pessoas a acreditarem que os pais das duas tinham uma queda pelo “re”, a segunda série. Considerações inúteis reprimidas, as aulas eram ministradas sempre sem muitos contratempos. Todos chegavam à escola, tendo que pouco caminhar, o garotinho branco, até a ela chegar. Quando lá já se encontravam, todos os alunos de todas as séries reuniam-se no pátio, se é que podia-se chamar aquilo de um, haja visto seu diminuto tamanho em relação a um pátio de uma escola ginasial ou abarcadora de todas as séries do ensino brasileiro. Essa aglomeração ocorria em consequência do Hino Nacional. Uma fila era feita em ordem de tamanho, o que fazia o garotinho branco sempre ficar bem na frente de todos, concorrendo, vez ou outra, com o garotinho branco de número dois, que não disputava o lugar detrás, mas sim o da frente. Uma discussão burra, naturalmente, para os olhos mais trabalhados de uma sociedade mais etariamente avançada. No entanto, para o garotinho branco número um e para o garotinho branco número dois, era uma glória poder ser o primeiro da fila. Tirando as ideologias anárquicas e de esquerda, que provavelmente desprezariam tal momento, como ele sendo um resquício da ditadura militar que afligiu a nação durante muitos anos, há de se convir que aquela escola era um fruto de tal período, tendo sido inaugurada no ano de mil novecentos e sessenta e quatro e possuindo em sua grade profissional pessoas que compactuavam, sobremaneira, com tal época obscuro de um Brasil estranho. Para o garotinho branco, não o número dois, mero coadjuvante neste relato, mas sim o primeiríssimo, era um modo interessante de emocionar-se. Sem saber muito bem a razão, pois nunca saíra de sua própria cidade, não escutava a “Hora do Brasil”, não tinha ideia ainda do que era o “Jornal Nacional” e nem quem era Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real, ele emocionava-se ao cantar as tão belas passagens do Hino desta nação. Ainda que não soubesse exatamente o que aquelas palavras significavam, era debulhante ver um símbolo ser ostentado em homenagem à pátria! Orgulha-se até hoje da professora que o obrigou a decorar o Hino Nacional, o Hino da Bandeira e tantos outros, pois hoje, se algum repórter de televisão o quiser abordar na rua, para uma pergunta: “Você sabe cantar o Hino Nacional?”, sim, ele diria: eu sei. Foi, então, no último ano do ensino fundamental, já que os únicos estudantes que tinham o direito de hastear a bandeira eram os melhores do último ano, chamado para tal. Um evento, considerou sua família. Para isso, teve que chegar mais cedo na escola, antes que todos, pegar a bandeira guardada e dobrada e hasteá-la, sim, para o céu!
Mas de nada isso adiantou, já que o garotinho branco havia cometido, alguns anos antes ao do único hasteamento de bandeira de sua vida, um dos maiores delitos que ele poderia vir a poder imaginar em seus sonhos, ou pesadelos, mais pérfidos e soturnos. O episódio gerou, anos depois, sua compulsiva vergonha alheia. Era incapaz de ver alguém passar por algum constrangimento, ou situação embaraçosa, sem que, com isso, sentisse internamente que aquilo acontecia, metafisicamente, com ele próprio e, se duvidar, sentia mais que a própria pessoa que estava sendo alvo de tal vergonha e humilhação, pública ou privada, física ou verbal. Tudo em razão da vergonha que ele sentiu de si mesmo naquele fatídico dia. Não se sabe o motivo, pois o seu subconsciente, de tão traumatizado, só o permite lembrar da situação a partir do instante em que o xingou. A razão para isso não era mais perceptível para o garotinho branco.
Estavam todos em sala de aula, antes da hora do intervalo. As cadeiras, de madeira velha e riscada, eram agrupadas em três, formando-se, com isso, apenas uma, compartilhada por três crianças moribundas, dispostas, ou não, a aprender a ler, escrever e a contar. Fazia muito calor naquele dia, e todos sentiam a falta da menina que sentava na última carteira. Na semana anterior, ela brincava de balanço na mesma, independente da aula que estava sendo dada diante de seus olhos sempre tão verdes. Escutou-se um barulho e quando os alunos deram-se por si, a secretária já a punha nos braços para leva-la ao pronto-socorro. A impressão que se tinha era de que ela havia perdido a ponta do dedo, que nem Luiz Inácio. Ficando fora uma semana, a ponta do dedo, que contava-se e acreditava-se, havia fugido, encontrava-se agora branca, com uma espécie de esparadrapo. A coitada, como se a desgraçada doída não fosse pequena, apareceu com um tampão no olho esquerdo, restringindo sua beleza, sendo que ela nunca deu muitas explicações para aquilo, mas o fato é que ela nunca mais foi odiada pelos meninos da classe, sentimento compatível, àquela idade, ao amor que os adolescentes sentem pelas senhoras que sentam-se ao seu lado, tanto na escola, quanto no ônibus, quanto em qualquer lugar. Então, a menina não viu o que aconteceu. Pelo menos, menos uma pessoa para testemunhar o julgamento em praça pública.
Wilson, era seu nome, ou ainda é, pois o garotinho branco acha que ele ainda não está morto. Não sentava-se muito recorrentemente ao lado do garotinho branco, mas naquele dia fazia companhia a ele. De memória, lembra-se que Wilson era uma criança difícil, não muito aplicada aos estudos e que sempre chorava antes de entrar na escola. Mas era, supostamente, seu amigo, e isso não entrava no mérito de suas capacidades intelectuais para poder o ser, ou não.
– Cuidado, você vai pegar febre de macaco! – berrou o garotinho branco, ao perceber que o outro colega que sentava-se ao lado esquerdo de Wilson o iria tocar.
Porque dizer isso? O que o levou a fazê-lo? Era uma brincadeira? Se o foi, deve ter sido muito desentendido. Nunca desejou tanto que alguém, depois das consequências do fato, não o tivesse escutado, pois, de repente, a professora, do alto de sua altivez e poder, bradou:
– O quê?!
É impressionante como as professoras perdem completamente sua suposta autoridade perante os alunos depois que eles passam a chamá-las de “professora”, ao invés de “tia”. As professoras primárias, pelo menos na época do garotinho branco, eram tão autoritárias e respeitadas, que os alunos chegavam a ter medo delas como se tinha medo de uma mãe e elas tinham uma pseudo autoridade de castigá-los, assim como se faz uma mãe, sendo que o medo do alunado perante elas era tanto, quando elas brigavam e chegavam perto, que era como se elas fossem espancá-los.
Wilson deve ter olhado fixamente para ele, pois se realmente olhou o garotinho branco não se lembrou. Só sabe que foi levado, pela tia Regilene, até a cozinha da escola, onde encontravam-se as duas serventes que auxiliavam na organização do colégio. Lá, apenas uma veio discursar. A professora disse:
– Ele chamou o outro de macaco.
A servente também era negra.
– Meu filho, eu criei dez crianças na minha vida e com muita dignidade.
Foi isso que ela disse, ou pelo menos só isso que o garotinho branco lembra-se da conversa. Com isso, ele crê, ela deve ter querido dizer que ela foi, “mesmo” negra, bem capaz de cuidar de outras vidas e que sim, ela serviu para algo e que não era inferior a ninguém.
O garotinho branco sentiu, depois, em casa, e mesmo no futuro, tanta vergonha do que fez, tanto constrangimento pelo ato e pela notoriedade pública e explícita do mesmo, que a vontade que tinha era de atirar-se em um poço e, de dentro dele, nunca mais sair, para tentar purificar-se do pecado que encontrava-se alojado dentro de sua boca, mas que tinha certeza, não dentro de seu espírito, pois na verdade nunca teve preconceito com pessoas de cor. Ou supostamente não teve, porque não lembra-se de como era sua vida em relação a essa questão antes do que aconteceu, mas só sabe que, depois disso, nunca mais xingou ninguém por sua cor de pele, situação financeira, nem outra discriminação minoritária.
Achando que tudo ficara bem, aparentemente, que seja, Wilson convidou o garotinho branco para seu aniversário. Que lindo.
No dia da infeliz tragédia, a professora não deixou ninguém sair para o recreio, “por causa dele!”. O único que saiu foi Wilson, sozinho. Todos juntos ficaram presos, de crime e castigo, confinados na sala de aula, enquanto Wilson encontrou sua liberdade de meia hora no pátio, ao lado dos brinquedos. Foi, então, a caminho de sua alegria instantânea, ainda que sozinho.
Em contrapartida, a vida, geralmente, não é sempre uniforme, e ele, uma pessoa que, por mais qualidades que possuísse, por vezes dizia coisas um tanto fora de auspicioso momento, teve seu dia de criminoso endiabrado, vil e sem escrúpulos pelo irmão próximo. Exerceu sua imoralidade diante de algo e em uma situação que apenas a inocência infantil é capaz de proporcionar.
Cursava, tendo como tia a professora Regilene, que tinha uma irmã chamada Regina, na mesma escola, levando as pessoas a acreditarem que os pais das duas tinham uma queda pelo “re”, a segunda série. Considerações inúteis reprimidas, as aulas eram ministradas sempre sem muitos contratempos. Todos chegavam à escola, tendo que pouco caminhar, o garotinho branco, até a ela chegar. Quando lá já se encontravam, todos os alunos de todas as séries reuniam-se no pátio, se é que podia-se chamar aquilo de um, haja visto seu diminuto tamanho em relação a um pátio de uma escola ginasial ou abarcadora de todas as séries do ensino brasileiro. Essa aglomeração ocorria em consequência do Hino Nacional. Uma fila era feita em ordem de tamanho, o que fazia o garotinho branco sempre ficar bem na frente de todos, concorrendo, vez ou outra, com o garotinho branco de número dois, que não disputava o lugar detrás, mas sim o da frente. Uma discussão burra, naturalmente, para os olhos mais trabalhados de uma sociedade mais etariamente avançada. No entanto, para o garotinho branco número um e para o garotinho branco número dois, era uma glória poder ser o primeiro da fila. Tirando as ideologias anárquicas e de esquerda, que provavelmente desprezariam tal momento, como ele sendo um resquício da ditadura militar que afligiu a nação durante muitos anos, há de se convir que aquela escola era um fruto de tal período, tendo sido inaugurada no ano de mil novecentos e sessenta e quatro e possuindo em sua grade profissional pessoas que compactuavam, sobremaneira, com tal época obscuro de um Brasil estranho. Para o garotinho branco, não o número dois, mero coadjuvante neste relato, mas sim o primeiríssimo, era um modo interessante de emocionar-se. Sem saber muito bem a razão, pois nunca saíra de sua própria cidade, não escutava a “Hora do Brasil”, não tinha ideia ainda do que era o “Jornal Nacional” e nem quem era Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real, ele emocionava-se ao cantar as tão belas passagens do Hino desta nação. Ainda que não soubesse exatamente o que aquelas palavras significavam, era debulhante ver um símbolo ser ostentado em homenagem à pátria! Orgulha-se até hoje da professora que o obrigou a decorar o Hino Nacional, o Hino da Bandeira e tantos outros, pois hoje, se algum repórter de televisão o quiser abordar na rua, para uma pergunta: “Você sabe cantar o Hino Nacional?”, sim, ele diria: eu sei. Foi, então, no último ano do ensino fundamental, já que os únicos estudantes que tinham o direito de hastear a bandeira eram os melhores do último ano, chamado para tal. Um evento, considerou sua família. Para isso, teve que chegar mais cedo na escola, antes que todos, pegar a bandeira guardada e dobrada e hasteá-la, sim, para o céu!
Mas de nada isso adiantou, já que o garotinho branco havia cometido, alguns anos antes ao do único hasteamento de bandeira de sua vida, um dos maiores delitos que ele poderia vir a poder imaginar em seus sonhos, ou pesadelos, mais pérfidos e soturnos. O episódio gerou, anos depois, sua compulsiva vergonha alheia. Era incapaz de ver alguém passar por algum constrangimento, ou situação embaraçosa, sem que, com isso, sentisse internamente que aquilo acontecia, metafisicamente, com ele próprio e, se duvidar, sentia mais que a própria pessoa que estava sendo alvo de tal vergonha e humilhação, pública ou privada, física ou verbal. Tudo em razão da vergonha que ele sentiu de si mesmo naquele fatídico dia. Não se sabe o motivo, pois o seu subconsciente, de tão traumatizado, só o permite lembrar da situação a partir do instante em que o xingou. A razão para isso não era mais perceptível para o garotinho branco.
Estavam todos em sala de aula, antes da hora do intervalo. As cadeiras, de madeira velha e riscada, eram agrupadas em três, formando-se, com isso, apenas uma, compartilhada por três crianças moribundas, dispostas, ou não, a aprender a ler, escrever e a contar. Fazia muito calor naquele dia, e todos sentiam a falta da menina que sentava na última carteira. Na semana anterior, ela brincava de balanço na mesma, independente da aula que estava sendo dada diante de seus olhos sempre tão verdes. Escutou-se um barulho e quando os alunos deram-se por si, a secretária já a punha nos braços para leva-la ao pronto-socorro. A impressão que se tinha era de que ela havia perdido a ponta do dedo, que nem Luiz Inácio. Ficando fora uma semana, a ponta do dedo, que contava-se e acreditava-se, havia fugido, encontrava-se agora branca, com uma espécie de esparadrapo. A coitada, como se a desgraçada doída não fosse pequena, apareceu com um tampão no olho esquerdo, restringindo sua beleza, sendo que ela nunca deu muitas explicações para aquilo, mas o fato é que ela nunca mais foi odiada pelos meninos da classe, sentimento compatível, àquela idade, ao amor que os adolescentes sentem pelas senhoras que sentam-se ao seu lado, tanto na escola, quanto no ônibus, quanto em qualquer lugar. Então, a menina não viu o que aconteceu. Pelo menos, menos uma pessoa para testemunhar o julgamento em praça pública.
Wilson, era seu nome, ou ainda é, pois o garotinho branco acha que ele ainda não está morto. Não sentava-se muito recorrentemente ao lado do garotinho branco, mas naquele dia fazia companhia a ele. De memória, lembra-se que Wilson era uma criança difícil, não muito aplicada aos estudos e que sempre chorava antes de entrar na escola. Mas era, supostamente, seu amigo, e isso não entrava no mérito de suas capacidades intelectuais para poder o ser, ou não.
– Cuidado, você vai pegar febre de macaco! – berrou o garotinho branco, ao perceber que o outro colega que sentava-se ao lado esquerdo de Wilson o iria tocar.
Porque dizer isso? O que o levou a fazê-lo? Era uma brincadeira? Se o foi, deve ter sido muito desentendido. Nunca desejou tanto que alguém, depois das consequências do fato, não o tivesse escutado, pois, de repente, a professora, do alto de sua altivez e poder, bradou:
– O quê?!
É impressionante como as professoras perdem completamente sua suposta autoridade perante os alunos depois que eles passam a chamá-las de “professora”, ao invés de “tia”. As professoras primárias, pelo menos na época do garotinho branco, eram tão autoritárias e respeitadas, que os alunos chegavam a ter medo delas como se tinha medo de uma mãe e elas tinham uma pseudo autoridade de castigá-los, assim como se faz uma mãe, sendo que o medo do alunado perante elas era tanto, quando elas brigavam e chegavam perto, que era como se elas fossem espancá-los.
Wilson deve ter olhado fixamente para ele, pois se realmente olhou o garotinho branco não se lembrou. Só sabe que foi levado, pela tia Regilene, até a cozinha da escola, onde encontravam-se as duas serventes que auxiliavam na organização do colégio. Lá, apenas uma veio discursar. A professora disse:
– Ele chamou o outro de macaco.
A servente também era negra.
– Meu filho, eu criei dez crianças na minha vida e com muita dignidade.
Foi isso que ela disse, ou pelo menos só isso que o garotinho branco lembra-se da conversa. Com isso, ele crê, ela deve ter querido dizer que ela foi, “mesmo” negra, bem capaz de cuidar de outras vidas e que sim, ela serviu para algo e que não era inferior a ninguém.
O garotinho branco sentiu, depois, em casa, e mesmo no futuro, tanta vergonha do que fez, tanto constrangimento pelo ato e pela notoriedade pública e explícita do mesmo, que a vontade que tinha era de atirar-se em um poço e, de dentro dele, nunca mais sair, para tentar purificar-se do pecado que encontrava-se alojado dentro de sua boca, mas que tinha certeza, não dentro de seu espírito, pois na verdade nunca teve preconceito com pessoas de cor. Ou supostamente não teve, porque não lembra-se de como era sua vida em relação a essa questão antes do que aconteceu, mas só sabe que, depois disso, nunca mais xingou ninguém por sua cor de pele, situação financeira, nem outra discriminação minoritária.
Achando que tudo ficara bem, aparentemente, que seja, Wilson convidou o garotinho branco para seu aniversário. Que lindo.
No dia da infeliz tragédia, a professora não deixou ninguém sair para o recreio, “por causa dele!”. O único que saiu foi Wilson, sozinho. Todos juntos ficaram presos, de crime e castigo, confinados na sala de aula, enquanto Wilson encontrou sua liberdade de meia hora no pátio, ao lado dos brinquedos. Foi, então, a caminho de sua alegria instantânea, ainda que sozinho.
XIII) A via crucis do corpo
Pequeno nasci e assim permaneci depois por toda a minha vida, tendo passado a diminuir o já diminuto corpo a partir da idade velha, onde os ossos já não são mais tão resistentes e começam a definhar por vontade aleatória e própria. Não passei dos um metro e sessenta centímetros de altura, mas mesmo acreditando que poderia utilizar essa informação a meu favor, pelo menos no que se tratasse de Exército e serviços militares, ledo engano. Fui obrigado a ir para Triagem pelo menos umas quatro vezes durante os meus dezoito pobres vividos anos. Foi constrangedor perceber que eu não seria o que imaginava que viria a ser quando chegasse a uma idade decente. Quando era do tamanho relativamente normal para pessoas que tinham a idade que eu tinha, pensava que seria, ao chegar à maioridade, ou muito próximo dela, um homem esbelto, magro, alto e um tanto semelhante ao espelho mais fidedigno que possuía em minha casa, um tio que todos diziam e que eu percebia que era fisicamente parecido comigo. Mas como herdei o lado pigmeu da família, nada adiantaria de medicamentos tomar, pois baixinho era para eu ficar. Portanto, prendi-me a vida toda nos grandes discursos que ouvia quando se estava a esmorecer: dentro de todo pequeno frasco, existe uma grande fragrância. Isso confortava-me de um modo extremamente lamuriento e piegas, ainda que me fizesse uma das pessoas mais felizes no mundo dos anões de jardim.
Tenho, também, para agregar valor à minha situação, manchas que o médico disse serem chamadas de café-com-leite. O braço esquerdo do meu corpo está infestado por elas. Esteticamente, as pessoas me perguntam se é algum machucado, se me feri, se é uma queimadura. Não. São apenas marcas. Um outro médico, dos muitos que já havia ido para tratar dessas questões, ressaltou que poderiam ser manchas surgidas através de problemas emocionais. Sim, problemas da emoção. Eu sou muito emotivo. Choro bastante. Provavelmente é o lado feminino que envolve a dialética do corpo freudiano berrando. Acredito mais na tese de que essas marcas são uma mutação genética do vitiligo que já deixou Michael Jackson, minhas bisavó e prima de segundo grau branquelos.
Ao vir ao mundo, mais pela vontade de meus pais do que a própria, tinha algo na cabeça. Não era juízo, certamente. Na verdade, ao nascer, vim com um ovo na cabeça. Tinha pouco cabelo no todo, mas em volta desse ovo, era só mato. Se eu me visse bebê, sairia correndo com medo de Satanás. Apesar de tudo, Deus é bom e Jesus escreve certo por linhas tortas: meu cabelo cresceu e a cabeça foi preenchida pelo mais loiro e liso ca-belo. Ao constatar que felicidade moribunda dura pouco, aos cinco anos de idade, minha mãe levou-me ao cabeleireiro para um corte radical. Máquina foi passada e depois disso meu pobre coitado lindo cabelo nunca mais foi o mesmo. Hoje vivo da vergonha de um cabelo crespo e armado, que fez minha cabeça, já grande, ficar maior ainda. Já pensei em raspar, mas como deixar aquele ovo, emandioma, cachinho, à mostra? Um tio que é médico disse que eu não poderia operar, arrancando o mal pela raiz, pois, se o fizesse, cabelo nunca mais cresceria naquela área, pois a cirurgia pegaria o coro cabeludo. Tive, então, que resignar-me ao ovo e agradecer pelo fato de ele ser localizado bem no meio do crânio, permitindo que esse cabelo tão ruim o escondesse da sociedade. Meus amigos de escola, na adolescência, aquela fase criada pelo capitalismo estadunidense e que causou-me mais conflitos que tranquilidade, sempre me lembravam que eu alguma coisa tinha na cabeça. Por mais que meu cabelo escondesse a aberração, uma abertura singela se fazia naturalmente, fazendo com que, ao cabelo estando mais curto, pessoas próximas percebessem a situação anormal. Enfim, na hora tentar disfarçar, mas como certas atitudes na vida você não entende porque as toma, um belo dia, quando isso aconteceu, quis ser excêntrico e expus a anatomia de minha cabeça para a pessoa mais fofoqueira da sala de aula. Pronto. A merda já estava feita. Por a adolescência e suas situações e conjecturas ridículas serem passageiras, depois de alguns anos, os mesmos amigos deixaram de fazer chacota de mim por causa disso e passaram a ser pessoas mais conscientes com a deformidade alheia. Até minha família nunca mais comentou disso comigo. Então, um ovo que não se vê, por estar muito longe dos meus olhos, é um ovo que o meu coração não sente. O problema ainda é, infelizmente, ter que rezar para que a pessoa que está me beijando não passe a mão pelo alto de meu cocuruto; vai que ela grita e chama os órgãos de saúde?
Meus pés sempre foram muito pequenos e curvos. Tais características, por mais que sejam admiradas por alguns especialistas em pé, não eram tão agradáveis para mim. Eu queria ter pé de homem, e eles são grandes, chatos e feios. Ao mesmo tempo, minhas mãos eram realmente coisas que eu gostava muito. Pareciam mãos de pianista: os dedos grandes, finos, bonitos definitivamente. O problema estava nas unhas rosas. Por a pressão ser muito baixa, as unhas não eram de uma cor muito natural. Sempre escuta-se se eu pintei as unhas para algum evento especial. Gentalha.
Na barriga de minha mãe fui lutador de boxe. Minha orelha esquerda era comidi-nha na parte superior. Não era nada muito explícito, mas como eu não poderia deixar de reparar, me lamentar sobre e tentar encontrar nos outros a pena e piedade necessárias para que me amassem mais, percebi nisso um obstaculuzinho para a plena felicidade. As minhas orelhas eram grandes, o que era muito reconfortante. Dizem que quanto maior é a sua orelha, mais tempo você viverá. Agarro esta ideia com o maior dos afincos e realmente penso que, pelo tamanho de minhas orelhas e pelas linhas tão grandes que perpassam minhas palmas das mãos, viverei em torno de cem anos, ou mais.
Para não dizerem que não falei das flores, além do defeito do rosa dos dedos, o dedo em que mando tomar no cu tem um calo. A intelectualidade proporcionou-me isso, pois o lápis e a caneta sempre são apoiados nesse pobre e sacana dedo, para escrever alguma coisa. Meus braços eram grandes, sempre o foram, em relação proporcional ao restante do corpo. Pensei que eles já poderiam ter crescido antes e que o corpo depois o acompanharia, mas equivoquei-me, novamente. Os braços grandes continuaram e o corpo parou mais ou menos onde sempre se encontrou: próximo ao chão.
Os mais de uma década de natação não fizeram efeito quanto ao meu maior problema, o tamanho. As únicas coisas que mais cresceram em mim foram os ombros e a cabeça, sendo essa não tão necessariamente em razão da atividade física. Sendo assim, por tudo isso, tive que encontrar algum modo de me socializar, ser bem visto e quisto pelos outros e aceito de modo eficiente na sociedade. Consegui ser, por isso, uma pesso-a de humor muito ácido e sagaz, pois todos os dias, antes de sair de casa para algum evento, piadas, frases e textos eram mentalmente decorados e passados em resumo pela mente, para fazer bonito na hora da apresentação. Simpático sempre fui, para agradar os outros e ser sempre lembrado como aquele cara legal. Os feios e limitados precisam ser os melhores em tudo, porque precisam conseguir as coisas com maior esforço.
Auxiliando na regressão geométrica de meu tamanho, a coluna possuía uma lordose desconfortante. Sendo apenas isso, vá lá, mas a dor que sentia era tanta, que joguei-me, certa vez, ao chão, chorando de lamurientas dores. Falar desses assuntos com vovó era um prato cheio. Não sei se esses casos são hereditários, mas sei que ela igual-mente tinha problema semelhante e, quiçá, bem pior. Compartilhávamos, como se eu também um idoso fosse, que conversa com seus parceiros sobre dor, morte e remédios, nossas colunas curvadas. Esse fato, sempre pensei, ao ver-me diante do espelho, caso não existisse e minha coluna fosse melhor, poderia deixar-me alguns centímetros mais alto, fazendo com que sentisse-me menos inseguro ao chegar em uma balada cool. Apesar de tudo, por algum tempo, a coluna neste estado fez-me uma pessoa ligeiramente feliz. Como era uma lordose, involuntariamente, minha bunda, traseiro e nádegas eram mais arrebitados, como se eu tivesse, mesmo, uma bunda grande. Vocês não sabem como as pessoas gostam de apertar uma bunda grande. O problema é que, com o tempo, – tudo bem, tempo não, alguns segundos, haja visto que com apenas vinte anos minha bunda já não era a mesma – o traseiro começou a, pelo menos na minha imaginação e dentro de minha calça skinny, ficar menor e, pior, sem roupa, via-se todos aqueles caminhos que não levavam a lugar algum, tortuosos e feios, mais brancos que o próprio branco da pele que nunca viu sol, fazendo com que tudo ficasse extremamente visível. Sim, as estrias tomaram conta de minha bunda e, gradativamente, foram alcançando a perna.
Minha forma física sempre foi a de um palito de madeira de espetar dentes em churrascaria. Até que isso é bom. Para uma pessoa pequena, é interessante ser magro, pois é proporcional. Sendo gordo, nem estaria aqui escrevendo, pois já teria suicidado-me há séculos, rolando pelo Alto da Boa Vista, em direção aos carros. Teimosamente, na fase do fim da adolescência, onde a escola vai passando e começa-se a ir mais à festas e, principalmente, boates, inscrevi-me na academia do clube. Verão, época de fim de ano, tudo levou-me a isso. Tanto os corpos sarados da praia quanto a ideia de uma mu-dança completa de vida, proporcionada pelo Ano-Novo. Não sabia que entristeceria-me o fato de que, além de não conseguir, nem por um decreto, pegar corpo, as pessoas que lá iam, mais altas, bonitas e esbeltas que eu, aparentemente compravam roupas novas, de grife, para lá suar. Eu, na sorte, ia com a blusa que estava fora do armário e usada dentro de casa há uma semana. Inferior, mais do que já era, sentia-me. Mas como certas pessoas erram os mesmos erros consecutivas vezes, quis voltar para a academia um ou dois anos depois após a primeira e falida tentativa. Oito meses foram freneticamente passados naquele antro perdido, para absolutamente nada. Os professores, muito motivadores, diziam que cada corpo é um corpo e que cada um possui seu tempo, mas eu não consegui nada, fora um pouquinho de uma barriga mais dura. O que realmente parou-me, no entanto, foi uma crise de pedra renal que me afastaria de lá por apenas um mês, sendo que depois nunca mais voltei. Qual razão, motivo ou circunstância? Gastar dinheiro, suar que nem louco, não conseguir resultados e ainda sentir-me mendigo? Sendo assim, continuo pequeno e fracote, tendo a onda de fama do estilo nerd e do estilo magro, tatuado e descolado, salvo a minha vida, pelo menos por agora.
Tenho vergonha de ir à praia, nem por minha magreza, mas porque meus peitos, ao redor dos mamilos, possuem pelinhos dispersos e eloquentes. Pelinhos! Olho para aquilo e me sinto um ornitorrinco. Por causa dos pelinhos dos meus peitinhos, sentei e chorei. Na competição, os pelinhos do peitinho perdiam apenas para as espinhas na cara. Não é que eu tenha tido muitas, pois já conheci casos bem mais berrantes, mas algumas minhas deixaram marcas, principalmente nas costas, mas isso de menos, pois ainda esconde-se, mas fiquei com duas marcas no rosto, bem ali, na cara de todos. Junto, ainda há as marcas de catapora, outrora adquirida.
Definitiva e peremptoriamente, uma pessoa feia.
Tenho, também, para agregar valor à minha situação, manchas que o médico disse serem chamadas de café-com-leite. O braço esquerdo do meu corpo está infestado por elas. Esteticamente, as pessoas me perguntam se é algum machucado, se me feri, se é uma queimadura. Não. São apenas marcas. Um outro médico, dos muitos que já havia ido para tratar dessas questões, ressaltou que poderiam ser manchas surgidas através de problemas emocionais. Sim, problemas da emoção. Eu sou muito emotivo. Choro bastante. Provavelmente é o lado feminino que envolve a dialética do corpo freudiano berrando. Acredito mais na tese de que essas marcas são uma mutação genética do vitiligo que já deixou Michael Jackson, minhas bisavó e prima de segundo grau branquelos.
Ao vir ao mundo, mais pela vontade de meus pais do que a própria, tinha algo na cabeça. Não era juízo, certamente. Na verdade, ao nascer, vim com um ovo na cabeça. Tinha pouco cabelo no todo, mas em volta desse ovo, era só mato. Se eu me visse bebê, sairia correndo com medo de Satanás. Apesar de tudo, Deus é bom e Jesus escreve certo por linhas tortas: meu cabelo cresceu e a cabeça foi preenchida pelo mais loiro e liso ca-belo. Ao constatar que felicidade moribunda dura pouco, aos cinco anos de idade, minha mãe levou-me ao cabeleireiro para um corte radical. Máquina foi passada e depois disso meu pobre coitado lindo cabelo nunca mais foi o mesmo. Hoje vivo da vergonha de um cabelo crespo e armado, que fez minha cabeça, já grande, ficar maior ainda. Já pensei em raspar, mas como deixar aquele ovo, emandioma, cachinho, à mostra? Um tio que é médico disse que eu não poderia operar, arrancando o mal pela raiz, pois, se o fizesse, cabelo nunca mais cresceria naquela área, pois a cirurgia pegaria o coro cabeludo. Tive, então, que resignar-me ao ovo e agradecer pelo fato de ele ser localizado bem no meio do crânio, permitindo que esse cabelo tão ruim o escondesse da sociedade. Meus amigos de escola, na adolescência, aquela fase criada pelo capitalismo estadunidense e que causou-me mais conflitos que tranquilidade, sempre me lembravam que eu alguma coisa tinha na cabeça. Por mais que meu cabelo escondesse a aberração, uma abertura singela se fazia naturalmente, fazendo com que, ao cabelo estando mais curto, pessoas próximas percebessem a situação anormal. Enfim, na hora tentar disfarçar, mas como certas atitudes na vida você não entende porque as toma, um belo dia, quando isso aconteceu, quis ser excêntrico e expus a anatomia de minha cabeça para a pessoa mais fofoqueira da sala de aula. Pronto. A merda já estava feita. Por a adolescência e suas situações e conjecturas ridículas serem passageiras, depois de alguns anos, os mesmos amigos deixaram de fazer chacota de mim por causa disso e passaram a ser pessoas mais conscientes com a deformidade alheia. Até minha família nunca mais comentou disso comigo. Então, um ovo que não se vê, por estar muito longe dos meus olhos, é um ovo que o meu coração não sente. O problema ainda é, infelizmente, ter que rezar para que a pessoa que está me beijando não passe a mão pelo alto de meu cocuruto; vai que ela grita e chama os órgãos de saúde?
Meus pés sempre foram muito pequenos e curvos. Tais características, por mais que sejam admiradas por alguns especialistas em pé, não eram tão agradáveis para mim. Eu queria ter pé de homem, e eles são grandes, chatos e feios. Ao mesmo tempo, minhas mãos eram realmente coisas que eu gostava muito. Pareciam mãos de pianista: os dedos grandes, finos, bonitos definitivamente. O problema estava nas unhas rosas. Por a pressão ser muito baixa, as unhas não eram de uma cor muito natural. Sempre escuta-se se eu pintei as unhas para algum evento especial. Gentalha.
Na barriga de minha mãe fui lutador de boxe. Minha orelha esquerda era comidi-nha na parte superior. Não era nada muito explícito, mas como eu não poderia deixar de reparar, me lamentar sobre e tentar encontrar nos outros a pena e piedade necessárias para que me amassem mais, percebi nisso um obstaculuzinho para a plena felicidade. As minhas orelhas eram grandes, o que era muito reconfortante. Dizem que quanto maior é a sua orelha, mais tempo você viverá. Agarro esta ideia com o maior dos afincos e realmente penso que, pelo tamanho de minhas orelhas e pelas linhas tão grandes que perpassam minhas palmas das mãos, viverei em torno de cem anos, ou mais.
Para não dizerem que não falei das flores, além do defeito do rosa dos dedos, o dedo em que mando tomar no cu tem um calo. A intelectualidade proporcionou-me isso, pois o lápis e a caneta sempre são apoiados nesse pobre e sacana dedo, para escrever alguma coisa. Meus braços eram grandes, sempre o foram, em relação proporcional ao restante do corpo. Pensei que eles já poderiam ter crescido antes e que o corpo depois o acompanharia, mas equivoquei-me, novamente. Os braços grandes continuaram e o corpo parou mais ou menos onde sempre se encontrou: próximo ao chão.
Os mais de uma década de natação não fizeram efeito quanto ao meu maior problema, o tamanho. As únicas coisas que mais cresceram em mim foram os ombros e a cabeça, sendo essa não tão necessariamente em razão da atividade física. Sendo assim, por tudo isso, tive que encontrar algum modo de me socializar, ser bem visto e quisto pelos outros e aceito de modo eficiente na sociedade. Consegui ser, por isso, uma pesso-a de humor muito ácido e sagaz, pois todos os dias, antes de sair de casa para algum evento, piadas, frases e textos eram mentalmente decorados e passados em resumo pela mente, para fazer bonito na hora da apresentação. Simpático sempre fui, para agradar os outros e ser sempre lembrado como aquele cara legal. Os feios e limitados precisam ser os melhores em tudo, porque precisam conseguir as coisas com maior esforço.
Auxiliando na regressão geométrica de meu tamanho, a coluna possuía uma lordose desconfortante. Sendo apenas isso, vá lá, mas a dor que sentia era tanta, que joguei-me, certa vez, ao chão, chorando de lamurientas dores. Falar desses assuntos com vovó era um prato cheio. Não sei se esses casos são hereditários, mas sei que ela igual-mente tinha problema semelhante e, quiçá, bem pior. Compartilhávamos, como se eu também um idoso fosse, que conversa com seus parceiros sobre dor, morte e remédios, nossas colunas curvadas. Esse fato, sempre pensei, ao ver-me diante do espelho, caso não existisse e minha coluna fosse melhor, poderia deixar-me alguns centímetros mais alto, fazendo com que sentisse-me menos inseguro ao chegar em uma balada cool. Apesar de tudo, por algum tempo, a coluna neste estado fez-me uma pessoa ligeiramente feliz. Como era uma lordose, involuntariamente, minha bunda, traseiro e nádegas eram mais arrebitados, como se eu tivesse, mesmo, uma bunda grande. Vocês não sabem como as pessoas gostam de apertar uma bunda grande. O problema é que, com o tempo, – tudo bem, tempo não, alguns segundos, haja visto que com apenas vinte anos minha bunda já não era a mesma – o traseiro começou a, pelo menos na minha imaginação e dentro de minha calça skinny, ficar menor e, pior, sem roupa, via-se todos aqueles caminhos que não levavam a lugar algum, tortuosos e feios, mais brancos que o próprio branco da pele que nunca viu sol, fazendo com que tudo ficasse extremamente visível. Sim, as estrias tomaram conta de minha bunda e, gradativamente, foram alcançando a perna.
Minha forma física sempre foi a de um palito de madeira de espetar dentes em churrascaria. Até que isso é bom. Para uma pessoa pequena, é interessante ser magro, pois é proporcional. Sendo gordo, nem estaria aqui escrevendo, pois já teria suicidado-me há séculos, rolando pelo Alto da Boa Vista, em direção aos carros. Teimosamente, na fase do fim da adolescência, onde a escola vai passando e começa-se a ir mais à festas e, principalmente, boates, inscrevi-me na academia do clube. Verão, época de fim de ano, tudo levou-me a isso. Tanto os corpos sarados da praia quanto a ideia de uma mu-dança completa de vida, proporcionada pelo Ano-Novo. Não sabia que entristeceria-me o fato de que, além de não conseguir, nem por um decreto, pegar corpo, as pessoas que lá iam, mais altas, bonitas e esbeltas que eu, aparentemente compravam roupas novas, de grife, para lá suar. Eu, na sorte, ia com a blusa que estava fora do armário e usada dentro de casa há uma semana. Inferior, mais do que já era, sentia-me. Mas como certas pessoas erram os mesmos erros consecutivas vezes, quis voltar para a academia um ou dois anos depois após a primeira e falida tentativa. Oito meses foram freneticamente passados naquele antro perdido, para absolutamente nada. Os professores, muito motivadores, diziam que cada corpo é um corpo e que cada um possui seu tempo, mas eu não consegui nada, fora um pouquinho de uma barriga mais dura. O que realmente parou-me, no entanto, foi uma crise de pedra renal que me afastaria de lá por apenas um mês, sendo que depois nunca mais voltei. Qual razão, motivo ou circunstância? Gastar dinheiro, suar que nem louco, não conseguir resultados e ainda sentir-me mendigo? Sendo assim, continuo pequeno e fracote, tendo a onda de fama do estilo nerd e do estilo magro, tatuado e descolado, salvo a minha vida, pelo menos por agora.
Tenho vergonha de ir à praia, nem por minha magreza, mas porque meus peitos, ao redor dos mamilos, possuem pelinhos dispersos e eloquentes. Pelinhos! Olho para aquilo e me sinto um ornitorrinco. Por causa dos pelinhos dos meus peitinhos, sentei e chorei. Na competição, os pelinhos do peitinho perdiam apenas para as espinhas na cara. Não é que eu tenha tido muitas, pois já conheci casos bem mais berrantes, mas algumas minhas deixaram marcas, principalmente nas costas, mas isso de menos, pois ainda esconde-se, mas fiquei com duas marcas no rosto, bem ali, na cara de todos. Junto, ainda há as marcas de catapora, outrora adquirida.
Definitiva e peremptoriamente, uma pessoa feia.
XIV) O despiste
A vida é um despiste. Ele foi
despistado de si já quando nasceu. Saiu da mãe e viu-se perdido, sem saber que
caminhos tomar. Pior: viu que a vida enganava-o e não mostrava-o a verdade, o saber
e o poder. Ela, porque queria, simplesmente deslumbrava-o momentaneamente com
sua beleza para, em seguida, apunhalá-lo, pelo prazer do masoquismo com os
desprovidos de livre circulação no mundo. José não pediu para nascer,
definitivamente, e é definitivamente um pecado obrigarem-no a continuar
vivendo, mesmo sem que ele saiba como fazê-lo, já que dizem ser proibido pela
Lei se matar, sendo apenas Deus o capacitado a interferir no encontro com o
final. Mas ele era realmente obrigado a querer morrer pelas mãos de Deus Pai
Todo Poderoso, ao invés de suas próprias Todas Poderosas mãos? É muito egoísmo
da parte d’Ele não conferir esse simples direito aos seus próprios filhos. Como
sofreu José durante sempre, ao perceber que era mais torto que o torto, mas
pecador que o próprio pecado e mais odiado que o próprio ódio. Nasceu com todos
os pecados nele e com todos os indicativos primitivos de infelicidade para que,
com os anos, ele fosse-os desenvolvendo, constatando que sem isso ele não era
ele, e que sem ele, ele não mais seria nada e não era mais ninguém. José
insignificava-se por natureza, muitas vezes, quase sempre. Queria ser um pouco,
pelo menos por um dia, para ter o prazer de saber como é ser um pouco. Nada encaixava-o
e ele não encaixava-se em nada. Ele sentia que por muitas vezes odiava-se, como
odiava os outros. Era quando sentia-se mais só: com quem ele estaria, então, se
até ele não queria-o? Quem haveria-o de querer? Quem?
“Venham
para mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu
lhes darei descanso. Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou
manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas.
Porque a minha carga é suave e o meu fardo é leve”. [Mateus 11: 28-30]
Ele
estava cansado de carregar seu peso e queria descanso em Deus, mas então qual a
razão para Ele não deixa-lo fazer justiça com as próprias mãos? Mas o principal
problema não era Ele, nem o filho d’Ele, nem a mãe d’Ele, nem o pai d’Ele, nem
a avó d’Ele. O problema era ele mesmo, com letra minúscula, pois é José. Não
tinha coragem de matar-se, ou pelo menos pensava não ter coragem de matar-se.
Sempre imaginou o momento em que iria morrer. Sempre imaginou, principalmente,
a hora em que teria plena consciência de que aquela seria de fato sua hora, e
conjecturava, sempre, como ele estaria sentindo-se no momento. “Deve ser um
instante oco”, pensava. “Branco, onde nada passa e tudo está pleno. Saber que é
ali e agora que vai-se morrer, pode dar uma cena muito bonita, mas triste para
o coração...” Ah...
Mas
ele precisava, ele tinha, ele queria, era questão de necessidade resolver esse
problema da existência. José não fora programado, como ocorre com todos os
outros, a viver. Ele nascera para sobreviver. Existir, para ele, era assim.
José está em processo de descobrir, desde o dia em que teve noção de que ele
era ele e não sua mãe, que há dias em que simplesmente existe (mas o faz
passiva e inconsequentemente, diferente da forma ativa de todas as outras
pessoas) e que há dias em que ele simplesmente, com muito esforço, sobrevive. Apesar
de tudo, ao passar o dia da sobrevivência simplesmente esforçada, percebia que
fortalezas são capengas e que ele ainda tinha muito que percorrer, isso se ele
conseguisse chegar lá, seja onde esse lá fosse, se esse lá existisse, todavia.
José fora ensinado sobre o que não poderia dever ser. Então, aí, ficou o vácuo:
o que, portanto, ele teria que ser? Isso ninguém disse. E até hoje ele não sabe
a resposta.
José
sentia-se ignorante ao pensar em Deus, porque simplesmente Ele não existe e
nunca viu nenhuma foto d’Ele saída no jornal. Portanto, porque martirizar-se
por Ele, se Ele nem aqui está? Mas o que enraíza-se, finca-se e propaga-se. As
pessoas acreditam n’Ele, o que já basta para que Ele, em consequência da vã
crença, exista. Fora cético em toda a vida, por razões práticas. Não desejou
acreditar em Deus porque quis acreditar em si, pois ele seria a resposta para
tudo, para ele, para o mundo. Ele, no entanto, assim como Deus, não teve todas
as portas das chaves. Fez-se, então, triste. Fez-se triste ao saber que ele,
além de ser ele, deveria ter que buscar saber de onde ele vinha, como se não
bastasse apenas saber que viera da barriga dela. O divino ao contrário,
desdenhando de todas as tentativas de descrença de José, apareceu, uma única vez,
para ele, revelando que vivo Ele era, e que tinha o poder e que tinha o saber.
Dormindo,
José sonhara com uma amiga, já de muita idade. No dia seguinte, recebeu a
notícia de que ela morrera no dia de seu sonho. Nunca antes ele sonhara com
ela, sendo aquela a única primeira reveladora vez. Depois disso, passou a
acreditar que Ele avisava e fazia-se presente. Mas não. Se Ele realmente fosse
Ele e se Ele realmente fosse tão bom como dizem que o é, não teria apenas avisado-me
dela, mas teria-a salvado. Como percebeu-se, ela não salvou-se. Deus, enfim,
não existia mais, novamente.
Por
mais que ele acreditasse na inexistência divina – e que ele não poderia mais na
Terra viver, por sua inadequação a ela – almejava com muita fé, antes de
dormir, todos os dias, por uma resposta d’Ele. Se ele ali aparecesse, desse
algum sinal, qualquer sinal, José acreditaria, pegaria em sua mão e iria, iria,
sim, iria.
(8)
“Se as águas do mar da vida quiserem te afogar, segura na mão de Deus e vai. Se
as tristezas desta vida quiserem te sufocar, segura na mão de Deus e vai.
Segura na mão de Deus, segura na mão de Deus, pois ela, ela te sustentará. Não
temas, segue adiante, e não olhes para trás. Segura na mão de Deus e vai. Se a
jornada é pesada e te cansas da caminhada, segura na mão de Deus e vai. Orando,
jejuando, confiando e confessando, segura na mão de Deus e vai. O espírito do
Senhor sempre te revestirá. Segura na mão de Deus e vai. Jesus Cristo prometeu
que jamais te deixará. Segura na mão de Deus e vai”. (8)
Aí
ele não mataria-se e tudo ficaria bem. Eis a contradição. Ele não acredita e
não vive, mas mostrem-no Ele e digam-no como deve-se viver, mínima e
mediocremente para ser feliz, que ele acreditaria em tudo que dissessem, e empenharia-se
ao máximo para ser o que as pessoas quisessem que ele fosse. Ele queria
jogar-se para fora, mas dessem apenas uma mão, um sinal, que ele jogaria-se para
dentro.
***
José
não podia-se mais por ser José, que carrega em si todas as mazelas do mundo,
toda a pobreza e a tristeza, tudo que é de menos e mais pequeno nessa vida que
se é uma é ruim demais. Pela festa ter acabado para ele, há anos, há sempre,
ele desejou perder-se, perder-se mais do que já é perder-se ao viver-se. Quis
perder-se, para poder achar-se, ainda que não houvesse certeza de sucesso em
nenhuma das duas empreitadas. Nascer, viver, morrer. Criança, adulto, velho. Há
gente que não é trifásica, que para antes. Ele, desde sempre, sabia,
negramente, que muito provavelmente não chegaria a ser trifásico. Essas
regalias não são para gente como José: ele, que carrega todas as mazelas do
mundo, toda a pobreza e a tristeza, tudo que é de menos e mais pequeno nessa
vida que se é uma é ruim demais.
“Eu
sozinho não consigo carregar este povo, pois supera as minhas forças! Se é
assim que me pretendes tratar, prefiro a morte! Concede-me esse favor, e eu não
terei que passar por essa desgraça!” [Números 11:14-15]
Mas
viver o pecado é mais simples que dizer o pecado. As pessoas nem sempre escutam
o que queremos de fato dizer. Quando não queremos dizer nada, elas ouvem coisas
ditas por nós. Quando queremos dizer tudo, elas veem um deserto, porque
provavelmente e muito certamente não creem relevante o que tem-se a dizer.
Seria por isso que José não conseguia dizer seu pecado? Não, José simplesmente
não sabia, apalpadamente, qual de fato era sua chaga. Em contrapartida, sabia
que tinha-a, que tinha-as, porque sentia-se assim. Quando sente-se,
verdadeira-se e comprova-se a existência de algo que realmente é planificável diante
de nossos olhos marejados pelo egoísmo. Mas José sentia um nada, um vazio, um
buraco, um. Sabendo que tinha, não sabia o que tinha. Isso matou-o mais que a
morte poderia matá-lo. Saber que tem-se e não saber o que tem-se é muito bonito
de ver-se, mas muito feio de sentir-se. Um dia ele poderia encontrar as razões
e o seu ou os seus pecados em si? Sim, definitivamente. Ele mente.
José
nasceu pecado e teve que trabalhar a vida para tirar o pecado de si, ainda que
não se possa tirar de si o que nasceu consigo. Não pedimos para nascer, porque
nos impõem incumbências tão duras? Só pode-se exigir o que de livre vontade
vem-nos. José nada quis, nunca. Mas tudo vinha até ele, não para abraçá-lo, mas
para batê-lo. O que nasce conosco, contigo, convosco, pode ser camuflado,
esquecido, mas jamais apagado. Somos o que somos ao nascer e apenas ao morrer
virtualmente deixamos de sê-lo, por mais que não saiba-se o que pode acontecer
lá em cima, ou lá embaixo, ou lá no meio, pois até agora não vieram dizer a ele
o que passa-se por aquelas bandas. José não sabe se quer saber o que passa-se
em outros lugares, além do lugar em que ele mesmo existe. Mas ele não sabe o que
ele é, ele não sabe o que passa-se com ele, ele não sabe o que quer, ele não
sabe por que quer, ele não sabe por que nasceu.
Foi
assim que José decidiu morrer. Decidiu? Desde que descobriu não ser a extensão
de sua mãe, sabia que morreria. Apenas cumpriu seu destino, como todos os
esclarecidos, como ele, como ele? devem fazer.
Medo.
O medo. Medinho. Está aí. Provavelmente um dos pecados de José era ter medo.
Mas medo é um pecado? Na Bíblia diz isso, José?
***
Mamãe,
eu me perdi. Eu não sei mais para onde ir. Achava antes que o mundo seria meu,
que tudo já estava garantido, mas depois de pouco tempo tive certeza que tudo
não seria do jeito que eu, quando criança, havia planejado. Eu não quis fugir,
juro. Apenas aceitei as coisas como elas me foram entregues, e por isso sofro,
por incompreensão própria e alheia. Não sei se a decepcionei, mas eu tentei ser
o mais honesto comigo mesmo, diante de minhas fraquezas e meus fracassos. Não
escolhi, fui escolhido, e por isso não fugi, fui fugido.
Mamãe,
porque a senhora não me disse como seriam os caminhos? Chegaria ao sofrimento
com mais facilidade, sem ter que sofrer mais que o necessário para conseguir
sofrer. Sei que a culpa não é totalmente da senhora, pois muito de meu
descaminho eu mesmo busquei, sem nem saber que estava me perdendo, coitado de
mim. Sempre achei que as coisas poderiam voltar ao que eram antes, mas
definitivamente elas não voltam não, as coisas ficam do jeito que elas resultam
ao final da equação. Por isso, saí-me ferido da batalha. Os machucados nunca
cicatrizaram e segundo os médicos que consultei, mamãe, sem a senhora saber,
para não preocupá-la, nunca mais sararão.
Mamãe,
que vontade de chorar, mamãe. Só de dizer a palavra “mamãe” já tenho vontade de
chorar, eu, que sou José, que não poderia chorar, que deveria ser forte. Eu perdi-me
usufruindo coisas que eu pensei que ajudariam-me a encontrar-me. Enganei-me,
como quase sempre. A cultura fez com que eu perguntasse-me mais e não que eu
respondesse-me mais. Será que a senhora sabe responder-me, mamãe?
Mamãe,
acho que a senhora não pode ajudar. Não pode compartilhar de meu sofrimento.
Sabe aquela lógica onde um médico cirurgião não é eticamente permitido a operar
seu pai, sua mãe, seus irmãos, seus filhos, seus netos? Pois então, é a mesma
que utilizo aqui. A senhora eticamente necessita afastar-se de mim, para que eu
viva, sofra, arrebente-me, e a senhora não participando de nada, apenas
servindo-me o almoço de domingo.
Mamãe,
eu só queria não ter que precisar cuidar de mim; ter dois anos eternos de
idade. Mamãe, eu te amo. Não, te odeio. Não, te amo. Não, te odeio. Não, te
amo. Não, te odeio. Não, não sei. Não. Sei. Mamãe, a senhora ama-me ou
odeia-me? Mamãe, a senhora me ama ou me odeia? Porque, não traumatize-me mais
do que já traumatizado estou.
Mamãe,
eu vou morrer. Mas não chore: eu sou um pecador. Chora-se por pecadores? Mas
conto-lhe, em segredo: não sei exatamente quais são meus pecados, mas dizem que
eu tenho-os; portanto, creio. Mamãe, chorarei. Olhe, estou para chorar, estou
sentindo. Mamãe, sim, vou chorar, mamãe! Está caindo lágrima, pelo olho
direito. Ela está saindo, vagarosamente, arosamente; será que pego?
Mamãe,
eu vou à cozinha, beber um pouco de água, para acalmar-me. Já volto. Eu volto.
Não desligue o telefone.
***
Eu estou
caindo. Eu estou definitivamente caindo. Eu caí.
Peguem-me,
por favor. Pelo menos uma mão, nem que seja a de Deus.
Porque
meu nome é José, ele, que carrega todas as mazelas do mundo, toda a pobreza e a
tristeza, tudo que é de menos e de menor nessa vida que se é uma é ruim demais.
XV) Do que foi perdido, em poesia
Não sei quem sou.
Porque me perdi – na esquina aqui de casa –
Quando fui comprar pão.
Não sei se me acharão.
Porque – logo que me perdi –
Passou um de lixo: caminhão.
Não sei o que farão.
Porque me perdi – muito cedo e para muito longe.
Mas quem sabe
Lá longe, desde muito cedo
Não seja mesmo meu deslocamento?
Porque me perdi – na esquina aqui de casa –
Quando fui comprar pão.
Não sei se me acharão.
Porque – logo que me perdi –
Passou um de lixo: caminhão.
Não sei o que farão.
Porque me perdi – muito cedo e para muito longe.
Mas quem sabe
Lá longe, desde muito cedo
Não seja mesmo meu deslocamento?
XVI) A mãe, o pai, o irmão, a avó e a psicanálise
"Ele era muito teatral. Colocou-se diante do espelho com um terno preto e uma flor na lapela. Levou a arma até a boca, esperou até que o tambor esquentasse e, olhando para seu reflexo com um sorriso alheado, puxou o gatilho. Caiu como um paletó lançado dos ombros, mas a alma continuou em pé por algum tempo, sacudindo a cabeça, cada vez mais leve. Então, com relutância, ela penetrou no corpo, sangrento na extremidade superior, no momento em que sua temperatura estava caindo para o nível térmico de um objeto, o qual – como sabemos – é sinal de longevidade." Suicídio – Zbigniew Herbert.
Estávamos dentro do ônibus eu, vovó e meu irmão, passando ao longo da orla da praia de Botafogo. Ao saltarmos, ficamos caminhando por um construído de pedras, no Arpoador, desses que servem para estar a pescar. Meu irmão ficava afastado de nós dois, enquanto eu segurava vovó pelo braço, pois ela andava na beirada do construído de pedras, sempre na iminência de cair nas águas. Como o tempo estava fechando, entramos em uma residência, ao lado de onde estávamos. Nela, meu irmão sentou-se em uma cadeira, enquanto vovó saía de cena, por um corredor. Eu perguntei para ele: “Você já contou a ela que papai morreu?”, no que ele disse-me: “Sim.” Então, comecei a chorar descompassadamente. Nisso, o telefone tocou, e mamãe fez-me solicitações para o dia, acordando-me do sonho.
Fim da vida.
Pois vive-se apenas no sonho. No dia-a-dia, atua-se.
Estávamos dentro do ônibus eu, vovó e meu irmão, passando ao longo da orla da praia de Botafogo. Ao saltarmos, ficamos caminhando por um construído de pedras, no Arpoador, desses que servem para estar a pescar. Meu irmão ficava afastado de nós dois, enquanto eu segurava vovó pelo braço, pois ela andava na beirada do construído de pedras, sempre na iminência de cair nas águas. Como o tempo estava fechando, entramos em uma residência, ao lado de onde estávamos. Nela, meu irmão sentou-se em uma cadeira, enquanto vovó saía de cena, por um corredor. Eu perguntei para ele: “Você já contou a ela que papai morreu?”, no que ele disse-me: “Sim.” Então, comecei a chorar descompassadamente. Nisso, o telefone tocou, e mamãe fez-me solicitações para o dia, acordando-me do sonho.
Fim da vida.
Pois vive-se apenas no sonho. No dia-a-dia, atua-se.
XVII) Se eu escrevesse cartas e fizesse aniversário
Eu deveria escrever cartas. Assim, poderia trabalhar de maneira mais satisfatória a minha literatura. Mas não tenho certeza se alguém, hoje em dia, ainda gostará de receber cartas. Eu gostaria de escrevê-las, mas tenho quase certeza de que não as receberia de volta, como resposta, ficando assim em um vácuo comunicativo, que representaria, para a minha pessoa, a falta de apresso que os outros têm por mim. Devo, em todos os meus vinte anos de vida, ter escrito duas cartas. Uma, para uma prima ucraniana, tendo recebido resposta, graças a Deus, ainda que muito tempo depois. Outra, para um namo-rinho qualquer, o que arrependo-me deveras, pois além de não obter resposta, envergonho-me de ter colocado ali coisas tão desnecessariamente bonitas para alguém que em nem dois meses abandonou-me. Tendo a crer, aliás, que sempre abandonam-me. Nunca penso que eu desisti de você, ou de vocês. Porém sempre penso que você, ou vocês, desistiu/desistiram de mim. Isso deve ser porque eu fui criado dentro de uma sociedade repressora e oprimida, onde eu tenho mais que escutar do que dizer, mais dar do que receber, mais estudar do que ser estudado, mais amar do que ser amado, mais dar respostas do que ser respondido. Porque eu quero responder-me, por mais que não consiga, quase sempre. Dar uma frase como retorno a uma outra frase interrogativa é algo dificílimo, até para os mais treinados. Tudo fica mais quando trata-se de si mesmo. Além de tudo, é complicado definir-se sem parecer altruísta ao revés. Também não quero parecer. Gosto de falar sobre mim, sobre as minhas coisas, sobre o que gosto de fazer, sobre minhas ig-norâncias e banalidades. Pois é a única coisa que acho que mais sei. Posso especular sobre tudo, mas sobre mim afirmo conscientemente. Se escrevesse cartas, todas elas, infelizmente, seriam sobre mim mesmo. Então, não tem mais sentido escrever cartas, porque para falar de mim mesmo, já escrevo livros. Devo mais pensar que escrevo livros do que de fato escrevê-los. Pensa-se demais e faz-se de menos. Sempre foi assim e é ignorância dizer que hoje é diferente de ontem. Se escrevesse cartas, todas elas seriam contando o eu. Se escrevesse cartas, porque das duas que escrevi, foi sempre pensando em fazê-lo para, a partir daí, criar um hábito de escrever cartas. Elas, então, não existiram por si mesmas, foram apenas uma suposta partida, que vê-se agora, vazia, tanto de sentido, quanto de conteúdo, porque além de não ter recebido resposta da última, não consegui, por meio de nenhuma delas, uma resposta. Mas que resposta? Uma resposta.
Se escrevesse cartas para todo o mundo, receberia cartas de todo o mundo. Porque todo o mundo não é todo o mundo namoradinho. O mundo namoradinho não manda cartas em retorno, apenas o fazendo o mundo amiguinho e o mundo familiarzinho. Portanto, hoje eu estaria recebendo cartas. Porque hoje é o dia do meu aniversário. Não sei ainda muito bem quais são as convenções paradigmáticas para se comemorar um dia de aniversário. Sempre sou, há anos, convidado para os mesmos aniversários, tendo eles já uma padronização formal e social de intenções: ligam-me, convidam-me, apareço, canto parabéns, como bolo e volto, em seguida, para minha casa. Mas e com o dia do meu próprio aniversário, o que fazer e como fazer e quem chamar e quem comer e quem beber? Chego ao ponto de até não gostar de fazer aniversários por ser complicado para mim, diante de um leque amplíssimo de opções, escolher a melhor. Mentira. Durante todo o ano, sempre tenho muito boas opções de como realizar uma boa festa de aniversário. Mas quando chega no dia do meu aniversário, parece que todas aquelas inúmeras opções somadas anulam-se, fazendo com que em minha mente fique apenas um oco inábil. Se escrevesse cartas, poderia receber boas opções de comemoração, bem próximas ao meu aniversário, para que facilmente não esqueça-as. Dessas pessoas que vou aos aniversários, praticamente só as vejo nos mesmos. Ai, se escrevesse mais cartas...
Pensei, com isso, em não fazer nada. Esperaria que os outros viessem até mim. Não convidaria ninguém, não programaria nenhuma festa, que sempre dá errado e a gente sempre se estressa organizando. Vão ligar-me, vão passar aqui em casa, vão desejar-me feliz aniversário, tudo de bom, muitos anos de vida, muito carinho, paz e amor. Vão dizer que comerão meu bolo, vão dizer que o Senhor derramará o Seu amor sobre mim, vão dizer que eu sou tudo para eles, vão dizer que sem mim nada seria possível, que sem mim tudo seria sem sentido, que sem mim nem as cartas poderiam ser escritas. Diriam, enfim, que eu fiz sentido neste mundo, que eu entendi-os e que eu entendi-me. Dariam-me, com isso, um beijo e um abraço apertado, pois sempre estou disposto a um abraço e um beijo. Fariam, também, sempre, uma homenagem a minha pessoa. Poderia ser uma apresentação oral, em cartaz, em conjunto, em carro de som, mas o fariam. Eu acho. Mas se eu escrevesse cartas, com certeza a homenagem viria em uma, linda. Como eu parei de escrever as duas cartas, eu nunca receberia uma homenagem em carta de dia dos meus anos aniversariados.
Decidi com convicção que nada seria feito, mas que tudo seria feito, porque eles me procurariam. Fui muito confiante na certeza de que eu era e seria amado e bem quisto por eles, meus amigos e minha família. Levantei-me às seis horas da manhã, porque podem já quererem desejar a mim parabéns essa hora, nunca se sabe os horários de estu-do e trabalho dos outros. Esperei, tomei café, almocei, lanchei, li jornal, vi o programa da Márcia, jantei, li, esperei. Não quis ligar para as pessoas chamando-as para virem aqui em casa, porque poderia parecer que eu as estava obrigando a desejar parabéns a mim. Isso não se faz, porque posso querer ser tudo, menos inconveniente e passar por vergonha e escárnio. Esperaria mais um pouco, porque tinha esperanças de que as pes-soas amavam-me e queriam-me e que desejariam-me uma boa vida. Se eu escrevesse cartas, teria mais certeza de que era bem amado, bem querido e bem desejado. Se as cartas que escrevesse obtivessem sempre uma resposta, aí sim teria a certeza absolutamente convicta de que de realmente mesmo as pessoas me bem amavam, me bem queriam e me bem desejavam, não necessariamente nesta ordem, pois não sou muito exigente. Mas como cartas não escrevo, não posso exigir, passei a pensar, que as pessoas me amem, me queiram e me desejem. Pensei, por último, que não deveriam saber que hoje era o dia do meu aniversário, por minha culpa, claro, porque eu provavelmente não dis-se a ninguém que hoje era o dia do meu aniversário. A culpa seria minha por não escrever carta e por não dizer à gente que hoje era o dia do meu aniversário. Tudo, apesar de tudo, são apenas conjecturas, pois quis acreditar nisso, para dar uma explicação à ausên-cia, confortando-me. Com certeza eles sabiam que hoje era dia do meu aniversário, mas não estão presentes pois gostam de fazer-me sofrer. Ou eu gosto de fazer-me sofrer, afi-nal de contas, a culpa é minha de eles não estarem aqui comigo. A culpa é minha por não escrever cartas e não saber a regra para o uso correto dos porquês e da correta classsificação das orações subordinadas. A culpa é minha por saber escrever, mas não saber classificar o que estou escrevendo. A culpa é minha por saber o que eu quero, mas não saber como chegar ao que quero. “Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.”, ela já havia dito e eu já havia concordado.
Cheguei a um ponto do dia que quis verdadeiramente que ninguém aparecesse. Assim, sentiria pena de mim e faria com que os outros sentissem pena de mim, também. Aprendam: a maneira mais fácil de receber o amor é fazer com que as pessoas tenham pena de você. A pena (não a que escreve, por favor) redime e é o meio menos difícil de receber-se um abraço apertado. Alguém chegando a minha porta, poderia fingir que não escutei, para depois dizer que a pessoa aqui não esteve, e implorá-la um pedido sincero de desculpas. Melhor: perdão. Eu veria, ali, o quão as pessoas amavam-me mesmo e elas passariam a fazer alguma coisa bonita para mim, comemoração, ou algo do tipo, por meio da pena e eu ficaria satisfeito e receberia um afeto que provavelmente não existiria se não tivesse vindo por meio da pena (novamente: não a que escreve, por favor). Se eu escrevesse cartas, poderia receber mais rotineiramente a pena alheia, sendo amado mais dias e com mais intensidade pelos terceiros, quartos e quintos, até os décimos.
Se eu escrevesse cartas todos os dias e se eu comemorasse sempre bem o meu aniversário, saberia ser uma pessoa mais feliz. Mas como não pratico minha literatura cotidianamente, sou uma pessoa que não escreve bem, e por não praticar meu aniversário todos os dias, sou uma pessoa que não aniversaria bem. Queria ter coerência e coe-são, pelo menos mais perceptivelmente. O que quero hoje, posso deixar de querer amanhã, mas é raro que abandone o que estava a querer ontem, pois existem sempre as pes-soas que esperam nosso retorno e que nos cobram de nossas supostas obrigações. Essas pessoas não permitem jogar-me. Essas pessoas querem que eu faça coerência e coesão escrevendo “Era uma vez,...”, mas só sei escrever “Era uma vez um pássaro, meu Deus.”, ela já havia dito e eu já havia concordado. Eu espero que você saiba quem é ela, pois eu sei quem ela é, ou pelo menos acho que sei quem ela é, porque eu acho que sei quem eu sou e eu e ela somos filhinho e mamãe.
Se eu escrevesse mais cartas e se eu comemorasse direito o meu aniversário, eu seria mais feliz, porque as pessoas leriam as minhas cartas e compareceriam ao meu aniversário, nem que por pena (a da caneta).
No fim do dia, chegou o fim do dia, e só.
Se escrevesse cartas para todo o mundo, receberia cartas de todo o mundo. Porque todo o mundo não é todo o mundo namoradinho. O mundo namoradinho não manda cartas em retorno, apenas o fazendo o mundo amiguinho e o mundo familiarzinho. Portanto, hoje eu estaria recebendo cartas. Porque hoje é o dia do meu aniversário. Não sei ainda muito bem quais são as convenções paradigmáticas para se comemorar um dia de aniversário. Sempre sou, há anos, convidado para os mesmos aniversários, tendo eles já uma padronização formal e social de intenções: ligam-me, convidam-me, apareço, canto parabéns, como bolo e volto, em seguida, para minha casa. Mas e com o dia do meu próprio aniversário, o que fazer e como fazer e quem chamar e quem comer e quem beber? Chego ao ponto de até não gostar de fazer aniversários por ser complicado para mim, diante de um leque amplíssimo de opções, escolher a melhor. Mentira. Durante todo o ano, sempre tenho muito boas opções de como realizar uma boa festa de aniversário. Mas quando chega no dia do meu aniversário, parece que todas aquelas inúmeras opções somadas anulam-se, fazendo com que em minha mente fique apenas um oco inábil. Se escrevesse cartas, poderia receber boas opções de comemoração, bem próximas ao meu aniversário, para que facilmente não esqueça-as. Dessas pessoas que vou aos aniversários, praticamente só as vejo nos mesmos. Ai, se escrevesse mais cartas...
Pensei, com isso, em não fazer nada. Esperaria que os outros viessem até mim. Não convidaria ninguém, não programaria nenhuma festa, que sempre dá errado e a gente sempre se estressa organizando. Vão ligar-me, vão passar aqui em casa, vão desejar-me feliz aniversário, tudo de bom, muitos anos de vida, muito carinho, paz e amor. Vão dizer que comerão meu bolo, vão dizer que o Senhor derramará o Seu amor sobre mim, vão dizer que eu sou tudo para eles, vão dizer que sem mim nada seria possível, que sem mim tudo seria sem sentido, que sem mim nem as cartas poderiam ser escritas. Diriam, enfim, que eu fiz sentido neste mundo, que eu entendi-os e que eu entendi-me. Dariam-me, com isso, um beijo e um abraço apertado, pois sempre estou disposto a um abraço e um beijo. Fariam, também, sempre, uma homenagem a minha pessoa. Poderia ser uma apresentação oral, em cartaz, em conjunto, em carro de som, mas o fariam. Eu acho. Mas se eu escrevesse cartas, com certeza a homenagem viria em uma, linda. Como eu parei de escrever as duas cartas, eu nunca receberia uma homenagem em carta de dia dos meus anos aniversariados.
Decidi com convicção que nada seria feito, mas que tudo seria feito, porque eles me procurariam. Fui muito confiante na certeza de que eu era e seria amado e bem quisto por eles, meus amigos e minha família. Levantei-me às seis horas da manhã, porque podem já quererem desejar a mim parabéns essa hora, nunca se sabe os horários de estu-do e trabalho dos outros. Esperei, tomei café, almocei, lanchei, li jornal, vi o programa da Márcia, jantei, li, esperei. Não quis ligar para as pessoas chamando-as para virem aqui em casa, porque poderia parecer que eu as estava obrigando a desejar parabéns a mim. Isso não se faz, porque posso querer ser tudo, menos inconveniente e passar por vergonha e escárnio. Esperaria mais um pouco, porque tinha esperanças de que as pes-soas amavam-me e queriam-me e que desejariam-me uma boa vida. Se eu escrevesse cartas, teria mais certeza de que era bem amado, bem querido e bem desejado. Se as cartas que escrevesse obtivessem sempre uma resposta, aí sim teria a certeza absolutamente convicta de que de realmente mesmo as pessoas me bem amavam, me bem queriam e me bem desejavam, não necessariamente nesta ordem, pois não sou muito exigente. Mas como cartas não escrevo, não posso exigir, passei a pensar, que as pessoas me amem, me queiram e me desejem. Pensei, por último, que não deveriam saber que hoje era o dia do meu aniversário, por minha culpa, claro, porque eu provavelmente não dis-se a ninguém que hoje era o dia do meu aniversário. A culpa seria minha por não escrever carta e por não dizer à gente que hoje era o dia do meu aniversário. Tudo, apesar de tudo, são apenas conjecturas, pois quis acreditar nisso, para dar uma explicação à ausên-cia, confortando-me. Com certeza eles sabiam que hoje era dia do meu aniversário, mas não estão presentes pois gostam de fazer-me sofrer. Ou eu gosto de fazer-me sofrer, afi-nal de contas, a culpa é minha de eles não estarem aqui comigo. A culpa é minha por não escrever cartas e não saber a regra para o uso correto dos porquês e da correta classsificação das orações subordinadas. A culpa é minha por saber escrever, mas não saber classificar o que estou escrevendo. A culpa é minha por saber o que eu quero, mas não saber como chegar ao que quero. “Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.”, ela já havia dito e eu já havia concordado.
Cheguei a um ponto do dia que quis verdadeiramente que ninguém aparecesse. Assim, sentiria pena de mim e faria com que os outros sentissem pena de mim, também. Aprendam: a maneira mais fácil de receber o amor é fazer com que as pessoas tenham pena de você. A pena (não a que escreve, por favor) redime e é o meio menos difícil de receber-se um abraço apertado. Alguém chegando a minha porta, poderia fingir que não escutei, para depois dizer que a pessoa aqui não esteve, e implorá-la um pedido sincero de desculpas. Melhor: perdão. Eu veria, ali, o quão as pessoas amavam-me mesmo e elas passariam a fazer alguma coisa bonita para mim, comemoração, ou algo do tipo, por meio da pena e eu ficaria satisfeito e receberia um afeto que provavelmente não existiria se não tivesse vindo por meio da pena (novamente: não a que escreve, por favor). Se eu escrevesse cartas, poderia receber mais rotineiramente a pena alheia, sendo amado mais dias e com mais intensidade pelos terceiros, quartos e quintos, até os décimos.
Se eu escrevesse cartas todos os dias e se eu comemorasse sempre bem o meu aniversário, saberia ser uma pessoa mais feliz. Mas como não pratico minha literatura cotidianamente, sou uma pessoa que não escreve bem, e por não praticar meu aniversário todos os dias, sou uma pessoa que não aniversaria bem. Queria ter coerência e coe-são, pelo menos mais perceptivelmente. O que quero hoje, posso deixar de querer amanhã, mas é raro que abandone o que estava a querer ontem, pois existem sempre as pes-soas que esperam nosso retorno e que nos cobram de nossas supostas obrigações. Essas pessoas não permitem jogar-me. Essas pessoas querem que eu faça coerência e coesão escrevendo “Era uma vez,...”, mas só sei escrever “Era uma vez um pássaro, meu Deus.”, ela já havia dito e eu já havia concordado. Eu espero que você saiba quem é ela, pois eu sei quem ela é, ou pelo menos acho que sei quem ela é, porque eu acho que sei quem eu sou e eu e ela somos filhinho e mamãe.
Se eu escrevesse mais cartas e se eu comemorasse direito o meu aniversário, eu seria mais feliz, porque as pessoas leriam as minhas cartas e compareceriam ao meu aniversário, nem que por pena (a da caneta).
No fim do dia, chegou o fim do dia, e só.
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