A literatura mundial poderia começar e acabar aqui, na 10ª linha, da página 21, até a linha 18, da mesma página, de "A hora da estrela", de Clarice Lispector:
"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."
sábado, 21 de agosto de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
Existir

Existem certas grandes diferenças no fato de existir: existem pessoas que existem e existem pessoas que simplesmente sobrevivem. Eu estou descobrindo que há dias em que eu simplesmente existo e que há dias em que simplesmente, com muito esforço, sobrevivo. Mas ao passar o dia da sobrevivência simplesmente esforçada, percebo que fortalezas são capengas e que eu ainda tenho muito que percorrer, isso se eu conseguir chegar lá, seja onde esse lá for.
***
Livro do dia: "Ilusões perdidas", de Honoré de Balzac.
Música do dia: "Lonely blue boy", de Conway Twitty.
Frase do dia: "Não pode haver em mim nem maquiagem, nem dissimulação, e jamais se percebe em meu rosto as aparências de um sentimento que não esteja em meu coração" - "Elogio da loucura", de Erasmo de Roterdã.
Filme do dia: "Tudo sobre minha mãe", de Pedro Almodóvar.
sábado, 7 de agosto de 2010
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Do que eu pensava em fazer da minha vida
Ana Carolina, eu e Luciana.
Estudar muito em 2007 para que consiga alcanãr meus objetivos que se resumem em passar no vestibular para prestar alguma faculdade pública. Sempre que o desânimo bater mais fotte lembrar que não posso desistir, que sempre há uma esperança. Nunca ter preguiça de me empenhar nos estudos mas, mesmo que isso ocorra, não desistir e estudar mesmo assim. Ter calma e paciência durante as provas, fazê-las com o tempo que me é disponível. Diante de uma nota baixa, principalmente em uma matéria que me considero bom, não abaixar a cabeça e estudar mais e mais. O computador será usado no máximo aos sábados ou domingos, pois de segunda até sábado até metade do dia devem ser exclusivamente dedicados para o estudo. Estudar muito, mais não esquecer da família e dos amigos mais queridos (Yasmin e Mariane). Não devo me privar do divertimento nos horários adequados, ou seja, ir em show, cinema, teatro, praia, viajar. No ano de 2006 não foi possível ir à Igreja de Nossa Senhora da Penha, Santa Rita e Santo Expedito, mas devo me esforçar ao máximo para que em Janeiro estas três igrejas sejam percorridas para que a consciência não pese durante o ano. Estas anotações vão servir para serem lidas em momentos em que eu pense em desistir ou apenas para reforçar meu engajamento. Não deixar que um número grande de alunos atrapalhe meu aprendizado e que um relativo mal ensino fundamental em matemática e física atrapalhem meu bom andamento. Que as pessoas sintam orgulho do meu desempenho e que vejam minhas botas notas, que podem chegar com 1 bom estudo. As provas de vestibular que eu pretendo fazer são da Uerj, UFRJ, Unirio, UFF e Enem e que comunicação social seja a escolha certa.
Rio de Janeiro, 29/12/2006.
Novo conto brotado do chão
Se eu escrevesse cartas e fizesse aniversário
Eu deveria escrever cartas. Assim, poderia trabalhar de maneira mais satisfatória a minha literatura. Mas não tenho certeza se alguém, hoje em dia, ainda gostará de receber cartas. Eu gostaria de escrevê-las, mas tenho quase certeza de que não as receberia de volta, como resposta, ficando assim em um vácuo comunicativo, que representaria, para a minha pessoa, a falta de apresso que os outros têm por mim. Devo, em todos os meus vinte anos de vida, ter escrito duas cartas. Uma, para uma prima espanhola, tendo recebido resposta, graças a Deus, ainda que muito tempo depois. Outra, para um namorinho qualquer, o que arrependo-me deveras, pois além de não obter resposta, envergonho-me de ter colocado ali coisas tão desnecessariamente bonitas para alguém que em nem dois meses abandonou-me. Tendo a crer, aliás, que sempre abandonam-me. Nunca penso que eu desisti de você, ou de vocês. Porém sempre penso que você, ou vocês, desistiu/desistiram de mim. Isso deve ser porque eu fui criado dentro de uma sociedade repressora e oprimida, onde eu tenho mais que escutar do que dizer, mais dar do que receber, mais estudar do que ser estudado, mais amar do que ser amado, mais dar respostas do que ser respondido. Porque eu quero responder-me, por mais que não consiga, quase sempre. Dar uma frase como retorno a uma outra frase interrogativa é algo dificílimo, até para os mais treinados. Tudo fica mais difícil quando trata-se de si mesmo. Além de tudo, é complicado definir-se sem parecer altruísta ao revés. Também não quero parecer. Gosto de falar sobre mim, sobre as minhas coisas, sobre o que gosto de fazer, sobre minhas ignorâncias e banalidades. Pois é a única coisa que acho que mais sei. Posso especular sobre tudo, mas sobre mim afirmo conscientemente. Se escrevesse cartas, todas elas, infelizmente, seriam sobre mim mesmo. Então, não tem mais sentido escrever cartas, porque para falar de mim mesmo, já escrevo livros. Devo mais pensar que escrevo livros do que de fato escrevê-los. Pensa-se demais e faz-se de menos. Sempre foi assim e é ignorância dizer que hoje é diferente de ontem. Se escrevesse cartas, todas elas seriam contando o eu. Se escrevesse cartas, porque das duas que escrevi, foi sempre pensando em fazê-lo para, a partir daí, criar um hábito de escrever cartas. Elas, então, não existiram por si mesmas, foram apenas uma suposta partida, que vê-se agora, vazia, tanto de sentido, quanto de conteúdo, porque além de não ter recebido resposta da última, não consegui, por meio de nenhuma delas, uma resposta. Mas que resposta? Uma resposta.
(...)
Eu deveria escrever cartas. Assim, poderia trabalhar de maneira mais satisfatória a minha literatura. Mas não tenho certeza se alguém, hoje em dia, ainda gostará de receber cartas. Eu gostaria de escrevê-las, mas tenho quase certeza de que não as receberia de volta, como resposta, ficando assim em um vácuo comunicativo, que representaria, para a minha pessoa, a falta de apresso que os outros têm por mim. Devo, em todos os meus vinte anos de vida, ter escrito duas cartas. Uma, para uma prima espanhola, tendo recebido resposta, graças a Deus, ainda que muito tempo depois. Outra, para um namorinho qualquer, o que arrependo-me deveras, pois além de não obter resposta, envergonho-me de ter colocado ali coisas tão desnecessariamente bonitas para alguém que em nem dois meses abandonou-me. Tendo a crer, aliás, que sempre abandonam-me. Nunca penso que eu desisti de você, ou de vocês. Porém sempre penso que você, ou vocês, desistiu/desistiram de mim. Isso deve ser porque eu fui criado dentro de uma sociedade repressora e oprimida, onde eu tenho mais que escutar do que dizer, mais dar do que receber, mais estudar do que ser estudado, mais amar do que ser amado, mais dar respostas do que ser respondido. Porque eu quero responder-me, por mais que não consiga, quase sempre. Dar uma frase como retorno a uma outra frase interrogativa é algo dificílimo, até para os mais treinados. Tudo fica mais difícil quando trata-se de si mesmo. Além de tudo, é complicado definir-se sem parecer altruísta ao revés. Também não quero parecer. Gosto de falar sobre mim, sobre as minhas coisas, sobre o que gosto de fazer, sobre minhas ignorâncias e banalidades. Pois é a única coisa que acho que mais sei. Posso especular sobre tudo, mas sobre mim afirmo conscientemente. Se escrevesse cartas, todas elas, infelizmente, seriam sobre mim mesmo. Então, não tem mais sentido escrever cartas, porque para falar de mim mesmo, já escrevo livros. Devo mais pensar que escrevo livros do que de fato escrevê-los. Pensa-se demais e faz-se de menos. Sempre foi assim e é ignorância dizer que hoje é diferente de ontem. Se escrevesse cartas, todas elas seriam contando o eu. Se escrevesse cartas, porque das duas que escrevi, foi sempre pensando em fazê-lo para, a partir daí, criar um hábito de escrever cartas. Elas, então, não existiram por si mesmas, foram apenas uma suposta partida, que vê-se agora, vazia, tanto de sentido, quanto de conteúdo, porque além de não ter recebido resposta da última, não consegui, por meio de nenhuma delas, uma resposta. Mas que resposta? Uma resposta.
(...)
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Pedro Lispector salvou-se da sífilis? ou Meu Deus

Fiquei com uma dúvida, lendo "Clarice,", de Benjamin Moser.
Entendi que Clarice Lispector, ou Chaya Lispector, nasceu em 1920 em razão de acreditarem, na Ucrânia, que nascimentos salvariam a mãe sifilítica de sua chaga, fora que Mania (mãe de Clarice) muito provavelmente engravidou no vácuo entre a primeira e segunda fase da doença, quando ignorantemente pensa-se que ela já não existe mais.
Até aí tudo bem, mas penso aqui com meus botões: Como é que o pai de Clarice não pegou a sífilis de sua esposa (contraída, por sua vez, acredita-se, dos soldados que invadiram a cidade em que viviam durante os conturbados anos pós-Primeira Guerra Mundial e pós-Revolução Russa)? O autor cita que milagrosamente Clarice nasceu sadia, mas quanto ao pai, não diz nada.
Ele, por sua vez, no Brasil chamado de Pedro Lispector e na Ucrânia de Pinkhas Lispector, morreu em 1940, após uma simples cirurgia. As filhas creem que ele morreu assassinado, porque se tratava de uma intervenção pouco complexa, fora que os médicos evadiram-se de explicações após a fatídica morte. Lembremos sempre que 1940 estava no meio da Segunda Guerra Mundial e que no Brasil existia forte repulsa aos judeus.
***
"'Desde então, porém, eu havia mudado tanto', ponderou, 'quem sabe agora já estava pronta para o verdadeiro 'era uma vez'. Perguntei-me em seguida: e por que não começo? agora mesmo? Será simples, senti eu. E comecei. No entanto, ao ter escrito a primeira frase, vi imediatamente que ainda me era impossível. Eu havia escrito: 'Era uma vez um pássaro, meu Deus.'" (Clarice, p.128, id Ainda impossível, in A descoberta do mundo, p.437)
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Como sempre, Francisco Bosco escreveu um lindíssimo ensaio: "O Globo", 04 de agosto de 2010, "Segundo Caderno", página 2.
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