quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Déficit


Eu sou dois mais dois

Mas o meu resultado dá três.

Guido Arosa, 26/10/11

sábado, 22 de outubro de 2011

Fragmentos de um discurso amoroso (Roland Barthes)

"A necessidade deste livro se apoia na seguinte consideração: o discuro amoroso é hoje em dia de uma extrema solidão. Este discurso talvez seja falado por milhares de pessoas (quem sabe?), mas não é sustentado por ninguém; foi completamente abandonado pelas linguagens circunvizinhas: ou ignorado, depreciado, ironizado por elas, excluído não somente do poder, mas também de seus mecanismos (ciências, conhecimentos, artes). Quando um discurso é dessa maneira levado por sua própria força à deriva do inatural, banido de todo espírito gregário, só lhe resta ser o lugar, por mais exíguo que seja, de uma afirmação. Essa afirmação é em suma o assunto do livro que começa."


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A arte depressiva


A vida é feliz. A arte, então, deve ser o contrário. A vida que a gente vive todo dia o fazemos de maneira cega, decorada e despretensiosa. Já a arte é a vida de pernas abertas, a vida revelada através de seu verdadeiro sentido, que tira do cerne da questão nossos paradigmas de realização e sucesso. É no desvio artístico que está justamente a beleza do artístico e sua importância. Por isso que a arte mais valorizada e a que mais toca é a melancólica e triste, porque já convivemos todos os dias com uma felicidade inventada e injetada. A música, o teatro, o cinema, tudo o que sai de valor daí pode ter certeza: é de fazer chorar. Com a tristeza da arte, podemos tentar ser felizes na realidade da vida.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Enquanto aguardo


Eu tenho pouco para escrever, porque estou sentado no café esperando o filme começar, daqui a vinte minutos. Mas o que acontece é que me deu uma vontade tão grande de dizer. Sinto-me mal por isso. Sempre que junto uma letra a outra, acredito que irão me xingar: "Clarice Lispector". Que culpa tenho eu de escrever o que escrevo do modo que escrevo? É como acusarem todo vlogueiro de querer imitar PC Siqueira, mas não deve ser o caso. Escrevo como muitos já escreveram, então porque não acusar-me de Clarice, Pessoa, Saramago, Balzac, pequeno?

É que agora eu só quero urinar. Esperar me dá vontade disso. Devo estar passando mal, não como nada que preste. Só penso agora em dente e em sujeira. Não escovei os dentes por enquanto. Tenho vergonha de ir ao banheiro na Zona Sul, em público. Eles não devem fazer osso e podem considerar falta de educação. Mas estou sujo e preciso lavar-me. A sujeita de dentro na boca que só entra comida e só sai palavrão, mas que não recebe um beijo de amor. O rosto sujo da poeira da rua que me constrange.

Andar me constrange. Pôr a cara na rua me acanha. Outro dia, saindo de casa cedinho, com guarda-chuva quebrado na mão e uma mochila pesada com a dor, nas costas, um homem passa na mesma calçada em direção oposta a mim. Quase esbarramo-nos e por quatro vezes balancei da direita para a esquerda sem saber como sair daquele labirinto em que me encontrava. Ele disse: “Porra!” e eu só soube dizer, de cabeça baixa: “Desculpe”. Então, consegui entrar em compasso com aquele trabalhador das sete da manhã e seguir meu caminho sem barreiras até o ônibus.

É que eu voltei a ser obsessivo. Estou obcecado pela presença. Sua presença está me sufocando. Porém é sua presença apenas na cabeça, pois fisicamente você não me permite obcecar-me por ti. Porque eu te sufoco, pois eu te massacro. Mas eu não te pedi em casamento, não te pedi em namoro, nem um beijo explicitamente quis. Demonstrei, isso sim, apenas querer ser eternamente sua Amélia.

Percebi que só sei escrever Eu – Guido – Eu.

Sensibilidade


Tudo me atinge tanto.
Se estou no ônibus, te vejo e você, desconhecido, não me vê, ai isso me atinge tanto.
Sinto que você me odiou, sem me saber.
Sinto que eu poderia ser seu, sem você ser meu.

Sinto-me rejeitado por desconhecidos.
Pelos conhecidos, já passei a me sentir acostumado.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O que me restou?


Meus destroços
Eu sou um troço
Eu troco a morte pela vida
E encontro a morte na vida
Meus escombros

Eu partirei junto de minha sombra
Não quero ficar velho sozinho

segunda-feira, 17 de outubro de 2011