
Eu sou dois mais dois
Mas o meu resultado dá três.
Guido Arosa, 26/10/11

A vida é feliz. A arte, então, deve ser o contrário. A vida que a gente vive todo dia o fazemos de maneira cega, decorada e despretensiosa. Já a arte é a vida de pernas abertas, a vida revelada através de seu verdadeiro sentido, que tira do cerne da questão nossos paradigmas de realização e sucesso. É no desvio artístico que está justamente a beleza do artístico e sua importância. Por isso que a arte mais valorizada e a que mais toca é a melancólica e triste, porque já convivemos todos os dias com uma felicidade inventada e injetada. A música, o teatro, o cinema, tudo o que sai de valor daí pode ter certeza: é de fazer chorar. Com a tristeza da arte, podemos tentar ser felizes na realidade da vida.

Andar me constrange. Pôr a cara na rua me acanha. Outro dia, saindo de casa cedinho, com guarda-chuva quebrado na mão e uma mochila pesada com a dor, nas costas, um homem passa na mesma calçada em direção oposta a mim. Quase esbarramo-nos e por quatro vezes balancei da direita para a esquerda sem saber como sair daquele labirinto em que me encontrava. Ele disse: “Porra!” e eu só soube dizer, de cabeça baixa: “Desculpe”. Então, consegui entrar em compasso com aquele trabalhador das sete da manhã e seguir meu caminho sem barreiras até o ônibus.
É que eu voltei a ser obsessivo. Estou obcecado pela presença. Sua presença está me sufocando. Porém é sua presença apenas na cabeça, pois fisicamente você não me permite obcecar-me por ti. Porque eu te sufoco, pois eu te massacro. Mas eu não te pedi em casamento, não te pedi em namoro, nem um beijo explicitamente quis. Demonstrei, isso sim, apenas querer ser eternamente sua Amélia.
Percebi que só sei escrever Eu – Guido – Eu.