terça-feira, 20 de setembro de 2011

Feliz

“Súbita falta de ar. Muito antes da metamorfose e meu mal-estar, eu já havia notado num quadro pintado em minha casa no começo. Eu, eu, se não me falha a memória, morrerei. É que você não sabe o quanto pesa uma pessoa que não tem força. Me dê sua mão, porque preciso apertá-la para que nada doa tanto.”

Clarice Lispector (“Clarice, uma biografia”, pagina 555, Benjamin Moser)

Marcel Proust (No caminho de Swann)

“Mas logo o ciúme, como se fosse a sombra do amor, se completava com a duplicidade daquele novo sorriso que ela lhe dirigira naquela noite – e que, inverso agora, zombava de Swann e enchia-se de amor por outro –, daquela inclinação da cabeça voltada para outros lábios e, dadas a um outro, de todas as marcas de ternura que ela tivera para com ele. E todas as lembranças voluptuosas que ele trazia da cada dela eram outros tantos esboços, “projetos” semelhantes aos que nos submete um decorador, e que permitiam a Swann se fazer uma ideia das atitudes ardentes ou lânguidas que ela poderia ter com outros.”

sábado, 10 de setembro de 2011

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

"Sexo para iniciantes" (13/09, às 19h, Livraria Blooks - Botafogo)

"Sofro tanto quando escrevo que parece que não sei ser outra coisa e tenho medo de assim permanecer e achar que minha felicidade está na tristeza. E é tentando colocar o que quero dizer pra fora que pretendo encontrar uma salvação feliz para mim, por isso que faço esses pedidos de permanência de algo e de mudança de outras coisas no conto, porque acho que o que quis dizer da forma que o fiz é a maneira como quero ser visto e compreendido pelas pessoas."


De Guido Arosa (escritor) para Zeca Fonseca (editor)


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O anjo pornográfico (1912-1980)

"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Notas da diáspora


Houve uma diáspora ibérica, que levou gente pequena e redonda para fora de sua origem, deixando a mesmice da vida das vacas e da colheita de lado e a colocando em um navio. Até o terceiro e último grande fluxo de imigração galega, outra história passou a ser contada em continentes diversos. Quem são eles? Não são espanhóis porque são galegos e vivem na Galícia e falam o idioma galego, meio português meio espanhol. Não são brasileiros, não são argentinos, não são sul-americanos em geral. Se independentes fossem, mais pobres do que já são seriam, portanto morreriam. A geração de antes, pertencente à Primeira e Segunda Guerra Mundiais além da Guerra Civil Espanhola, hoje se vê diante de duas realidades distintas. A verdade da gente que imigrou, na esperança de uma América de vitória, está diante dos anos dois mil idosa e com identidade do país onde vive há anos, ainda que jamais deixe de sentir a terra deixada para trás. Com uma família já formada em terras pré-colombianas e urbanas, o que fazer de seu sangue e passado? A verdade dos que não imigraram e permaneceram no extremo esquerdo ao norte da Península é uma vida de luto, na batalha perdida das parreiras, com suas gerações futuras sem pretender nem um mínimo possível trabalhar na sofreguidão braçal. Sem ninguém mais para produzir e passar para outras gerações o miserável ofício do suor, qual a razão para usufruir os dias? Quem para a cidade estrangeira foi hoje está menos no fim do que os que permaneceram, além de ter mais intenção de ir e voltar sempre que se pode para a terra natal. Mas sempre voltam e largam Galícia, como antes já o fizeram. Os que lá estão devem se contentar em dar oi e tchau, tanto para os parentes visitantes, quanto para as suas gerações que não querem saber de mais nada daquilo, assim como para a vida que depois de certo tempo se resume a uma roupa pretinho básico pela morte do companheiro. A Galícia como se estereotipa daqui a pouco ainda se dissipa. A Galícia de verdade hoje é o mundo; um mundo sem propriedade e espalhado, arraigado na religião. Na diáspora ibérica, o amor está na vida um dia vivida, ainda vivida e sempre a ser vivida.