Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade)
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
sábado, 19 de janeiro de 2013
"A mão suja"
Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos.
A princípio oculta
no bolso da calça,
quem o saberia?
Gente me chamava
na ponta do gesto.
Eu seguia, duro.
A mão escondida
no corpo espalhava
seu escuro rastro.
E vi que era igual
usá-la ou guardá-la.
O nojo era um só.
Ai, quantas noites
no fundo da casa
lavei essa mão,
poli-a, escovei-a.
Cristal ou diamante,
por maior contraste,
quisera torná-la,
ou mesmo, por fim,
uma simples mão branca,
mão limpa de homem,
que se pode pegar
e levar à boca
ou prender à nossa
num desses momentos
em que dois se confessam
sem dizer palavra...
A mão incurável
abre dedos sujos.
E era um sujo vil,
não sujo de terra,
sujo de carvão,
casca de ferida,
suor na camisa
de quem trabalhou.
Era um triste sujo
feito de doença
e de mortal desgosto
na pele enfarada.
Não era sujo preto
– o preto tão puro
numa coisa branca.
Era sujo pardo,
pardo, tardo, cardo.
Inútil, reter
a ignóbil mão suja
posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
Com o tempo, a esperança
e seus maquinismos,
outra mão virá
pura – transparente –
colar-se a meu braço.
(Carlos Drummond de Andrade)
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Trilogia da opressão
Melhor filme sobre a opressão negra: "O matador de ovelhas"
Melhor filme sobre a opressão homossexual: "Não é o homossexual que é perverso, mas a situação em que ele vive"
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
domingo, 23 de dezembro de 2012
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
O matador de homens
O filme estadunidense
“O matador de ovelhas”, dirigido por Charles Burnett, é uma surpresa feliz em
meio a um mar de mediocridade. Finalizado em 1977, como conclusão de mestrado
na Universidade da Califórnia (UCLA), Burnett se utilizou de vizinhos e
conhecidos, atores amadores, para compor este filme que não tem efeitos
especiais, não chega a ter nem cor, mas que tem o mais importante: excelentes
roteiro, trilha sonora, direção e fotografia. Negro, ele retratou o clima de
instabilidade social que a comunidade negra da cidade de Los Angeles vivia na
época – e que, ainda hoje, vive.
O personagem principal, Stan
(Henry G. Sanders), é um pai de família pobre, que trabalha em um matadouro de
ovelhas, que tenta fugir do determinismo da violência, mas que é infeliz em sua
essência. O modo como sua vida e as vidas paralelas dos personagens
coadjuvantes se demonstra é de uma sensibilidade sem paralelos. A fotografia
deixa os personagens grandes na tela, maiores em sua insignificância diante da
engrenagem do sistema, com a imagem preta e branca realçando o contrate entre
as cores, entre os opostos, que se complementam. Por mais que não sejam atores
profissionais, o elenco tem a interpretação na medida certa, já que o diretor
soube conduzi-los muito bem e, além disso, a história dos personagens é a
história real, então sem firulas e grandes interpretações que fujam ao real, à
subjetividade de cada um deles.
Stan tem uma mulher e dois
filhos, um menino mais velho e a menina caçula. A esposa tenta ajudar Stan em
sua infelicidade, mas ele aparentemente tem uma melancolia difícil de ser
deixada de lado. O filho tem uma violência latente, compartilhada com seus
amigos e comum ao seu cotidiano. O pai, em algumas cenas marcantes, rechaça
suas atitudes duras, mostrando ao filho que uma vida de violência gratuita não vela
a pena. No entanto, é forte o fato de, em contraste, Stan viver em meio a um
cenário cotidiano tão violento e cru, o de matar animais – nós também, animais –
em um matadouro.
Geralmente, um diretor utiliza,
entre uma cena e outra, para que a película “respire”, uma cena banal, para fazer
apenas uma introdução ao que virá em seguida, ou nem isso. No entanto, neste
filme, incomum e perfeito em todos as nuances, Burnett se utiliza como recurso
para “respirar” cenas de crianças brincando na rua. Cada uma destas cenas já
daria um filme lindo. Junto de uma trilha sonora repleta dos cantores negros
estadunidenses mais de raiz, do começo do século XX, até os anos 1950, estes
entremeios nos revelam a felicidade infantil, a tentativa de crianças serem
crianças em meio a um território pobre, esquecido pelo poder público, que tem
suas leis, suas regras, sua cadeia alimentar. Na falta de um espaço público
eficiente, as crianças brincam entre as casas, sendo apenas crianças, entre
trilhos de trem, sempre no limite entre viver e morrer, entre o perigo e a
segurança, entre a polícia e o ladrão.
A trilha sonora de “O matador de
ovelhas”, especificamente, é sublime e faz parte do roteiro, trazendo uma carga
tão forte quanto uma boa interpretação de um ator. Cantada por Dinah
Washington, “This bitter earth”, na cena em que a esposa de Stan tenta fazer
com que ele relaxe, entre no clima, seja feliz ao lado dela, é tão simbólica e
tão melancólica, que o espectador olha aquilo e vê, no mínimo, uma obra de arte
que tem o direito de se chamar obra de arte. Esta música expressa o amargo da
vida, a dureza do amor que se é tão bom por que ninguém compartilha?. “This bitter earth, can it be so
cold? / What good am I? Heaven only knows”, são versos que exprimem a
dor de ser uma “minoria”, de ser um excluído do mercado, do povo, da vida, das
escolhas.
Com o fim do filme, não temos o
que se vê nas obras de Hollywood e nos filmes mais comuns: uma explicação, uma
finalização, uma resposta para todas as perguntas que a película
pedagogicamente nos apresenta. Neste filme, não. Não temos respostas prontas,
apresentadas, chatamente respondidas. A cena final de “O matador de ovelhas” é
Stan de volta a seu trabalho, onde vemos mais detalhes de seu ofício e quando a
música “This bitter earth” volta ao filme. Daí, tudo se acaba. Mas é daí, nesta
brutalidade, que tudo – em nossa mente – se inicia.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
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