segunda-feira, 4 de outubro de 2010



eu quero fumar, mas eu não posso fumar, eu não gosto de fumar. gostaria muito de mudar de vida, sair da minha bolsa auxílio, e não entrar mais em outro emprego, tão ou mais estressante quanto. eu acabo entrando na onda, apesar de tudo. acabo não saindo de um e entrando no outro, ou pelo menos pensando que posso entrar em outro, e que tudo ficaria lindíssimo e que eu ficaria riquíssimo. depois, volta tudo ao desânimo e ao desespero.

e eu só quero viver de escrever, mas o problema é que eu quero viver logo.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Biscoito Fino lança este mês DVD em homenagem aos 50 anos de "O cavalinho azul"

Peça de Maria Clara Machado já virou filme, ópera e livro, agora chegando ao público como meio de preservação do passado cultural e visando a valorização do teatro e literatura infanto-juvenis




(Capa do DVD em homenagem aos 50 anos de "O cavalinho azul")


A Biscoito Fino, gravadora carioca no mercado desde 2001, em outubro lançará DVD pela comemoração do aniversário de 50 anos da primeira encenação da peça "O cavalinho azul", escrita e dirigida por Maria Clara Machado, considerada a maior dramaturga infantil brasileira. Fundadora do Teatro Tablado, uma das principais escolas de teatro nacional, faleceu de câncer há nove anos, mas deixou um legado vastíssimo de peças e livros ao longo de 80 anos de vida. Visando este legado que a Biscoito Fino presenteia seus ouvintes com trabalho de pesquisa e documentação primorosos, confirmando sua posição de vanguarda no incentivo às artes e ao reconhecimento de sua potencialidade no desenvolvimento de crianças e adultos.


Tendo recebido excelentes críticas na época de sua estreia, a peça, narrada por João de Deus, conta a história de Vicente, criança de origem pobre que vê em seu pangaré um belo cavalo azul, capaz de muitas peripécias e extravagâncias. Apesar de tudo, em consequência das dificuldades de vida da família, o cavalo é vendido, o que faz com que o garoto corra o mundo atrás de seu melhor amigo. Nessa busca, Vicente se depara com ambientes diferentes, onde passa por dificuldades e aventuras, mas não perdendo nunca seu intuito de reencontrar seu idealizado cavalo azul perdido. Peça infantil em um primeiro momento, Maria Clara Machado consegue alcançar crianças e adultos, já que o objetivo de ir atrás do que se ama e do que se acredita norteie o passar dos anos de alguém em qualquer idade.


(Fotografia da primeira montagem da peça, em 1960, no Teatro Tablado - RJ)

Manuel Bandeira, em sua coluna no "Jornal do Brasil", em 1960, afirmou que "Sonho e realidade, o sonho do menino, a realidade dos adultos sem resquício mais de infância, o circo e a cidade, chocam-se, combatem-se musicalmente nessa história fantástica, e naturalmente a vitória cabe à infância, à imaginação, ao sonho. Fica-se comovido. Eu fiquei comovido." Ao longo dos anos, recebeu adaptação para o cinema (dirigido por Eduardo Escorel, em 1984, com Joana Fomm, Erasmo Carlos e a própria Maria Clara Machado no elenco), para a ópera (músicas e libreto do maestro Tim Rescala, em 1991), fora outras encenações oficiais (em 1966, 1979, 1990, 2009 e 2010, atualmente no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea) e livro. Considerada pela revista "Veja" a melhor peça infanto-juvenil de 2009-2010, sua última montagem tem direção geral de Cacá Mourthé. Nesse sincretismo de plataformas de projeção e de sentimentos, vários estudos acadêmicos já foram feitos, tanto sobre a peça especificamente, quanto sobre sua autora, como, por exemplo, "Interfaces midiáticas: do teatro ao cinema, em 'O cavalinho azul', de Maria Clara Machado", da Universidade de Marília.

Portanto, para que o legado de autora tão relevante no área cultural não seja esquecido, e aproveitando os 50 anos de estreia da peça, a Biscoito Fino pretende com este seu novo projeto levar aos adultos e crianças (e as crianças que coabitam os adultos) um feito primoroso, com depoimentos, extras e homenagens à arte que se inicia na infância. Principalmente, confirmando sua posição de vanguarda, a Biscoito Fino tenta mudar este cenário lamentável de esquecimento e renegação do produto nacional, que resvala e tem suas principais consequências no que se faz voltado em primeiro momento a um público infanto-juvenil.

Abaixo, segue entrevista feita pelo jornalista Sidney Rezende, contida no DVD, onde vê-se nitidamente o engajamento político e socio-cultural de Maria Clara Machado, que teve o privilégio de valorizar as crianças, para que estas sigam suas vidas com uma visão de mundo muito mais ampla que a tida por muitos adultos.






(Entrevista de Maria Clara Machado dada ao jornalista Sidney Rezende)


"Quando levamos o teatro para a criança, somos apenas aqueles que estão abrindo o caminho, o caminho que vai do sonho à realidade. Estamos criando, através da arte e a partir do maravilhoso, a oportunidade do menino sentir que a vida pode ser bonita, feia, misteriosa, clara, escura, feita de sonhos e realidades." Maria Clara Machado


(Fotografia de Maria Clara Machado)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

sábado, 4 de setembro de 2010

Os poemas inominados colados na porta do armário

Se um dia eu me escondesse
Seria onde eu seria mais triste
Mas ao mesmo tempo o mais feliz
Porque teria encontrado meu lugar calmo
Para poder ler e escrever e parar de ver.

***

Se eu acordasse cego um dia
Não saberia o caminho para os lugares
Os outros necessitariam ajudar-me
Para o Sol poder contemplar-me
Pois é no desassossego
Que o cego sente o tato.
Porque sentir é o necessário:
não ver.

***

Os outros querem aparecer
Eu quero transparecer
Os outros dão-me apenas alguns dedos
E eu quero a oficialidade da mão toda
Os outros vivem constantemente da surpresa
E eu vivo constantemente do espanto
Porque para mim as coisas são mais difíceis
Para mim as coisas são mais sofríveis
Porque eu preciso lutar para nascer,
Todos os dias, cotidianamente.
Para que os outros, um dia, com sacrifício
Aceitem-me
Porque eu quero a oficialidade da mão toda
Enquanto eles dão-me apenas alguns dedos.

Literatura do isolado

Eu queria viver de literatura
Mas o reconhecimento me trás empacamento
Então a solução seria viver de literatura
Apenas no isolamento.

Assim, ninguém acharia este poema ruim.
Apenas eu.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Brevidades literárias

A Maria já foi ao mercadinho, já colocou o café na mesa, já assistiu a Ana Maria, já levou o cachorro pra passear, já tomou seu café sem açúcar, já varreu o quintal, já almoçou seu arroz empapado com farofa e carne moída, já deu uma cochilada de quinze minutos, já lavou o banheiro, já voltou ao mercadinho, já lanchou, já deu tchau pra vizinha que chegava, já assistiu ao telejornal, já viu a novela, já deu boa noite pra vizinha. Mas Maria, ao dormir, não conseguiu, porque ela sentia e pensava e queria.

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Cansei de falar de mim mesmo, porque eu sou um porre, e porres me deixam com dor de cabeça. Aliás, eu nem fico de porre, nem bebo, porque não gosto do gosto. Se eu sou um porre e se eu não fico de porre, eu não seria eu?

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Eu não escrevo português, eu me escrevo. Eu não escrevi isso, mas gostaria de tê-lo feito.

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Quando você termina uma coisa, até começar outra é difícil, difícil, difícil.

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O João perguntou pro Joaquim se ele um dia morreria. Ele disse que não, porque ele não morreria: “Ou viro estrela, ou viro purpurina, porque sou bicha.” Foi aí que João disse: “Que nojo, vou embora.” E foi.

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Fatalista, fatalista, fatalista. Sou fatalista, fat. Porque sou força de atrito, sou fatal. Fato.

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Estamos com calor, porque o sol está muito forte em cima de nossas cabeças. Anita chegou ao seu pai, já perguntando: “Papai, o que faremos, diante desta situação? Passeando aqui por São Cristóvão, sem uma sombrinha?” Papai respondeu: “Anita, você pode cobrir-se sozinha. Basta querer.” Mas ela disse que não queria se cobrir sozinha; queria que alguém a ajudasse a cobri-la em seu desassossego em Santo Cristo Ovo.

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Eu sinto-me ridículo divulgando-me. Parece que eu estou torturando as pessoas com a obrigação de elas prestarem atenção no que digo e escrevo. Escrevo? Sim. Sou escrito? Não. Mentirinha, apenas uma vez, mas deve ter sido por caridade, mas gostei tanto.

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Todos querem aparecer

Eu quero transparecer

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Aceitem-me ou Engulam-me

Dão-me apenas alguns dedos
Mas eu quero a oficialidade da mão toda.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Traduzir-se, ou velhos que parecem velhas


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questãode vida ou morte _
será arte?